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sexta-feira, 25 de julho de 2008

Sophia, no dia em que Portugal assume a Presidência da CPLP

COM FÚRIA E RAIVA

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Junho de 1974


A PALAVRA

Heraclito de Epheso diz:

«O pior de todos os males seria
A morte da palavra»

Diz o provérbio do Malinké:

«Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento
Mas não pode
Enganar-se na sua parte de palavra»

Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética III, O Nome das Coisas, Ed. Caminho, pág.199 e 210

Contribuição de Maria José Abranches, por e-mail

--//--

A Petição Contra o Acordo Ortográfico continua aberta e disponível para assinatura. Conta hoje com 88 651 assinaturas.

Assine-a em www.ipetitions.com/petition/manifestolinguaportuguesa.
Enquanto há Língua, há esperança.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Vasco Graça Moura - NÃO!

É possível que o Presidente da República não tivesse outro remédio formal que não fosse o de ratificar o segundo protocolo modificativo do Acordo Ortográfico.

Mas acontece que o Presidente da República é hoje o único alto responsável político português que tem plena consciência de que o Acordo Ortográfico é um deprimente chorrilho de asneiras. E de que a sua adopção introduzirá um cancro incurável na ortografia da língua portuguesa.

O Presidente da República está ciente de tudo isso por ter mandado estudar a abundante documentação que lhe foi entregue oportunamente, coisa que, de resto, o Governo não fez e devia ter feito.

Sendo que todas as análises especializadas produzidas sobre o Acordo são profundamente negativas, criar condições para que ele entre em vigor, sem se promover uma sua revisão de fundo, gera uma gravíssima responsabilidade jurídica, moral, política, cívica e cultural que não pode ser escamoteada por ninguém e a que o Presidente da República não pode fugir.

A ratificação vai ainda tornar possível a sequência delirante e já anunciada pelo ministro da Cultura de ser promovida a aplicação do Acordo em Portugal, independentemente do que resolverem Angola, Moçambique e a Guiné-Bissau, mais uma vez contra o parecer dos especialistas mais abalizados.

Decorridos 18 anos sobre a enormidade e, entre o desuso, o desinteresse, a obsolescência e a verificação gritante da péssima qualidade do Acordo, não há razão nenhuma para acelerações e muito menos para o Governo português decidir aplicá-lo antes de Angola, Moçambique e a Guiné-Bissau o terem ratificado, o que, aliás, oxalá não façam nunca...

Ao contrário do que diz o ministro da Cultura, não é o Governo que decide quando o aplica em Portugal, dado o contexto em que toda a questão se coloca. Toda a lógica da situação obriga a que Portugal não se comporte com voluntarismos caprichosos de dono pesporrente da língua. E recomendaria a qualquer decisor político de boa-fé se aproveitasse o tempo ainda disponível para se promover uma revisão imprescindível.

Mas entretanto, o Governo tentará comprometer pessoalmente o Presidente da República com toda esta situação vergonhosa, já que o Acordo Ortográfico foi subscrito em 1990 quando o prof. Cavaco Silva era primeiro-ministro. Simplesmente, há indícios de a chefia do Governo da época ter sido grosseiramente manipulada.

António Emiliano acaba de publicar na Guimarães Editores o livro O Fim da Ortografia - Comentário Razoado dos Fundamentos Técnicos do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990).

Aí afirma, quanto à Nota Explicativa, única peça oficial em que se fundamenta o Acordo, que "com documento tão desconchavado, tão imperfeito e tão lacunar, nenhum decisor político está ou esteve em condições de apreciar verdadeiramente o teor e as consequências da reforma".

E acrescenta: "É meu parecer profissional que o texto da Nota Explicativa peca não apenas por conter erros grosseiros de análise linguística e de apreciação da estrutura, natureza e funcionamento de um sistema ortográfico, mas também por induzir deliberadamente em erro os decisores políticos quanto à verdadeira extensão das mudanças ortográficas propostas."

De resto, António Emiliano não se limita a demonstrar que o Acordo Ortográfico é um conjunto calamitoso de erros inaceitáveis.

Indo mais longe do que quaisquer outros estudos academicamente qualificados que já aqui citei mais do que uma vez, este livro demolidor interpela o sentido de responsabilidade de todo e qualquer falante do português euro-afro-asiático-oceânico.

Da sua análise implacável resulta que se está perante um verdadeiro crime contra a língua portuguesa.

Ante todo este escândalo, a sociedade civil não pode cruzar os braços. Tem de insistir no seu protesto. Tem de engrossar o caudal das suas tomadas de posição. Tem de assinar maciçamente a petição/manifesto que corre na Internet. Tem de começar a enviar sms para todos os lados, dizendo que o Acordo Ortográfico é uma vergonha nacional. Tem de provocar a revisão dessa enormidade. Tem de afirmar em todas as ocasiões que não o aceita e se recusa a dar-lhe cumprimento.

Vasco Graça Moura | Escritor | Diário de Notícias | 23/7/2008

--//--

Assine a petição em www.ipetitions.com/petition/manifestolinguaportuguesa.
Enquanto há Língua, há esperança.

domingo, 20 de julho de 2008

Acordo Ortográfico: Ministro da Cultura recebeu críticos

Notícia Lusa/Expresso
«Acordo Ortográfico: Ministro da Cultura recebeu críticos
Lisboa, 18 Jul (Lusa) - O ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, recebeu hoje um grupo de signatários da petição contra o Acordo Ortográfico, uma reunião considerada pelas duas partes como "cordial".

19:50 | Sexta-feira, 18 de Jul de 2008
Lisboa, 18 Jul (Lusa) - O ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, recebeu hoje um grupo de signatários da petição contra o Acordo Ortográfico, uma reunião considerada pelas duas partes como "cordial".

"Foi um encontro que decorreu numa atmosfera de grande cordialidade e de compreensão recíproca" disse à Lusa Vasco Graça Moura, primeiro signatário da petição, no final do encontro.

"Foi uma troca de impressões muito leal, correcta e cordial", resumiu o ministro da Cultura.

Mas, após uma hora de reunião, as duas partes reafirmaram os seus pontos de vista, com a delegação constituída por Graça Moura, António Emiliano e José Nunes a reiterar as suas reservas face ao Acordo Ortográfico e o Governo a defendê-lo.

Os signatários da petição entregaram ao ministro um dossiê com vários pareceres contra o Acordo Ortográfico, documentos que já tinham sido entregues ao Presidente da República, à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a todos os países que fazem parte desta.

"Temos esperança no bom-senso dos titulares dos órgãos de soberania", afirmou o escritor, adiantando esperar que haja a compreensão destes para as "terríveis implicações do Acordo".

"O texto do chamado Acordo sofre de inúmeras imprecisões, erros e ambiguidades - não tem condições para servir de base a qualquer proposta normativa", considera a petição que já deu entrada na Assembleia da República, onde deverá ser discutida na próxima sessão legislativa, aguardando ainda agendamento.

Os peticionários entendem que o Acordo Ortográfico, alcançado em 1990, deve ser revisto e negociado, e pedem a suspensão da sua aplicabilidade independentemente da ratificação do protocolo modificativo de 2004.» (ler notícia completa)

sexta-feira, 18 de julho de 2008

MINISTRO DA CULTURA RECEBE SIGNATÁRIOS DA PETIÇÃO CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO

Um grupo de signatários da PETIÇÃO MANIFESTO EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO (que desde 2 de Maio recolheu já mais de 87.000 assinaturas), constituído por Vasco Graça Moura, António Emiliano e José Nunes será recebido pelo Ministro da Cultura esta sexta-feira, dia 18 de Julho de 2008, em audiência marcada para as 15h30, no Palácio da Ajuda.

Os signatários farão entrega de um dossier em CD-ROM com documentação relevante, contendo diversos pareceres contra o Acordo Ortográfico, alguns dos quais inéditos. Estes mesmos documentos foram já entregues a Sua Excelência o Senhor Presidente da República no passado dia 2 de Junho, à CPLP e a todos os países da CPLP, mediante entrega protocolar nas respectivas Embaixadas em Lisboa.

A maioria dos pareceres estão disponíveis para consulta no blogue oficial da petição, secção "Documentos".

A petição, que vai agora a caminho das 100.000 assinaturas, foi já admitida na Assembleia da República e aguarda o agendamento da sua apreciação em Plenário, nos termos da Lei, continuando disponível para assinatura em www.ipetitions.com/petition/manifestolinguaportuguesa.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Ricardo Migueis - Economia e língua

Não é a economia que anda a cavalo na língua, é a língua que anda a cavalo na economia. Economiza-se e facilita-se na língua para que se fale melhor economia. É assim que se define o argumento base dos acordistas, senão veja-se a entrevista do Ministro da Cultura no Jornal Expresso desta semana.

Mais uma vez, em nenhum momento, houve uma referência à língua enquanto expressão rica de identidades e povos, nem às alterações impostas pelo AO e em que medida estas contribuem para melhorar ou piorar a vida quotidiana de quem usa a língua para comunicar pela oralidade e pela escrita (todos…). Muito menos foi analisado o impacto em sectores específicos, como no ensino e no papel do professor da escola primária ou secundária, ou na aprendizagem dificultada pela incoerência acordista. Tal qual um crente na vidência, ou um lutador que baixou as luvas, acredita-se simplesmente que Portugal já não tem trunfos. O Brasil é o grande país da cena internacional de amanhã e como já se acabou a época de ouro do investimento directo português no Brasil, usemos a língua. Como se o acordo fosse ajudar a agarrarmo-nos aos calcanhares de um país tão diverso… como se o impacto do AO fosse miraculosamente fazer o Brasil virar os olhos para Portugal como se de mais um estado federal brasileiro se tratasse.

A grandeza do Brasil e de Portugal é muito maior que a pequenez desse desígnio. Há muito trabalho a fazer no âmbito de uma política de língua que permita que esta não seja mais uma moeda desvalorizada. Além disso, repito pela enésima vez… é de língua que estamos a falar, embora não pareça.

Ricardo Migueis | DINÂMIA/ISCTE | Editor da Revista Autor

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Vasco Graça Moura - LUÍS FIGO E A POLÍTICA DA LÍNGUA

Este Governo não tem emenda. Continua agarrado às manifestações de fachada e a não se preocupar minimamente com o rigor e a correcção daquilo que faz ou anuncia que vai fazer.

Uma das suas vítimas favoritas é a língua portuguesa. Tem-se visto abundantemente no que respeita ao Acordo Ortográfico. Mas agora, segundo o Expresso, o Conselho de Ministros prepara-se para adoptar esta semana uma resolução lançando "as bases de uma política da língua".

Essa comovente iniciativa seria muito interessante se o Governo a tivesse feito preceder de um debate público convincente.

Mas limita-se a tomar como base um estudo coordenado pelo meu amigo Carlos Reis, cuja competência nesta matéria é, não duvido, muito superior àquela de que ele tem dado provas no tocante ao Acordo Ortográfico, mas cuja credulidade me suscita as mais sérias reservas, uma vez que, entre outras coisas, atribui a Luís Figo um papel canónico na promoção da língua portuguesa em Espanha...

O certo é que ficaríamos todos bem mais sossegados se fosse conhecida a posição do Ministério da Educação, das universidades e de outras instituições e se tivesse havido uma discussão pública séria destas e de outras análises, bem como das linhas e dos critérios enunciados para as bases de uma política da língua.

Mas o Governo tem pressa. Vem aí a CPLP e ele quer ter alguma coisa para mostrar, com o picante de pretender agora lançar as bases de uma política da língua sem auscultação dos restantes países interessados... Não tem emenda, repito.

Todavia, há coisas que, mesmo sob a égide simpática de Luís Figo, são difíceis de perspectivar e até de engolir para alguns países da CPLP.

Poderá o Governo português assentar em que Angola e Moçambique não têm "um peso internacional considerável"?

E em que é preciso esperar que o tenham para a língua portuguesa se internacionalizar?

Com isto, aceitará o Governo português que o mundo inteiro, com Angola e Moçambique à frente, se lhe ria na cara?

O Governo português, tão encrençado em TGVs, afinal estará disposto a deixar agachadamente que o Brasil seja "a locomotiva fundamental do processo" e "o grande interlocutor no universo da língua portuguesa para África"? Para África?

Poderá o Governo português tomar medidas credíveis e oportunas de uma política da língua a partir do nenhum rigor, do espírito de demissão e da patente incorrecção política e cultural de pressupostos deste tipo?

E acaso terá sido prevista alguma política para a uniformização da terminologia gramatical, depois de tudo o que se passou com a TLEBS do lado de cá? Ou caminha-se irreversivelmente para uma dupla gramática pela mão dos mesmos que tanto se eriçam com as consoantes mudas?

O mais intrigante de tudo é que está a ser desenvolvida desde há anos uma política para a língua portuguesa no mundo. A presidente do Instituto Camões descreveu-a na FLAD em 5.11.2007 (Promoção da Língua Portuguesa no Mundo, relatório da reunião de trabalho, Fundação Luso-Americana, Novembro de 2007, pp. 43-56).

Aí se desenha um conjunto de linhas de acção concreta, a que provavelmente continua a faltar uma boa dotação orçamental, ligados a uma "óptica de trabalho sobre e com a língua portuguesa: língua da comunicação, do trabalho, da ciência, da cultura, do direito e da diplomacia", na perspectiva articulada de três vectores. Resumindo muitíssimo: 1) intra-fronteiras dos países CPLP e organizações internacionais e regionais em que o português é língua de trabalho, como o espaço ACP; 2) estratégias de promoção da língua, da cultura portuguesa e das culturas em língua portuguesa, por Portugal enquanto Estado membro da UE, fazendo valer esta "como língua de oito vozes culturais"; 3) promoção da língua e cultura portuguesas por Portugal em correlação com os seus próprios interesses sociopolíticos, apostando na promoção do ensino no Magrebe, na China e na Índia, nos países da Organização dos Estados Ibero-Americanos, nos EUA e no Canadá.

Então o Governo português vai atrever-se a mandar todo este trabalho para o lixo? Ó Luís Figo, vá lá, faça sinal a esta gente de que assim ainda perde de vez o campeonato…

Vasco Graça Moura | Escritor | Diário de Notícias | 9/7/2008

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Ricardo Migueis - O falso argumento: o Acordo Ortográfico e a expansão e afirmação internacional da língua portuguesa

A única influência efectivamente sentida no plano internacional pelas alterações introduzidas pelo Acordo Ortográfico, poderá vir exactamente da sua pior característica: o facilitismo subjacente à homogeneização com base na oralidade (brasileira, apenas). Que este facilitismo prejudicará a aprendizagem da língua já foi aqui e noutros meios exposto diversas vezes. Concentremo-nos no possível impacto do AO para a representação/presença/afirmação da língua portuguesa em fora internacionais. Ele será reduzidíssimo:
- não será por ele que a CPLP se tornará uma entidade supranacional reforçada e representativa, isso exigiria vontade política de outra natureza. O facto de a União Europeia não ter uma língua comum pode sair em caro em traduções, mas não impediu a integração política, económica e um saudável intercâmbio cultural e social;
- não colocará o português como língua oficial no Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio ou Nações Unidas, se isso vier a acontecer será em virtude do desenvolvimento económico do Brasil, que pela sua escala em número de habitantes e Produto Interno Bruto poderá ganhar peso nestas instituições;
- não será factor relevante para ajudar o Brasil a conseguir um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU;

Em recente entrevista ao jornal Expresso, o Professor Carlos Reis (Reitor da Universidade Aberta), diz, na mesma senda, que os “falantes (da língua portuguesa) são em parte integrados por povos e países que, infelizmente, contam pouco no concerto internacional”. No entanto, e ao contrário do que o mesmo adianta naquela entrevista, dificilmente se entenderá a correlação directa que ele parece querer estabelecer, entre o AO e a projecção das universidades portuguesas no exterior, seja em África, na Ásia ou em qualquer outro lado. A língua continuará a ser distinta e os factores de atractividade de alunos estrangeiros, ou de qualidade, não se prenderão certamente com a existência de uma ou duas normas ortográficas.

Acrescente-se à lista de correlações difíceis de compreender, ainda no âmbito do tão desejado objectivo de expansão e afirmação internacional da língua portuguesa, o crescimento do número de pessoas a aprender português vs Acordo Ortográfico. Se o número de aprendizes da língua portuguesa já está em crescimento, certamente não será por causa do Acordo Ortográfico, mas sim devido à afirmação internacional do Brasil e, em parte de Angola.

Parece estranho que se peça que nos olhemos isoladamente Portugal, em toda a sua “pequenez e necessária subjugação”, e de seguida se peça que Portugal tenha uma política de língua estruturada, clamando-se que esta vai em muito contribuir para a expansão da língua portuguesa. É claro que vai, mas não será por causa de qualquer AO. A política de língua precisa de ser bem definida, é fabuloso que se ande a trabalhar nela. Só é pena que nenhum dos pilares desse trabalho seja… a língua em si.

Enfim, é impossível e não desejável a unificação fonológica, morfológica, sintáxica e lexical da língua portuguesa entre todos os países da CPLP. Não será possível transformar a CPLP numa grande federação de países em que a língua falada e escrita é, de facto, unificada. Não será minimamente desejável desvalorizar as singularidades locais em prol de uma comunidade unificada por um idioma comum. As singularidades enriquecem o património comum. Por tudo isto e muito mais, o argumento que faz depender a vitalidade da língua portuguesa de um qualquer Acordo Ortográfico, é falso. Além disso, convinha reflectir um pouco sobre que língua portuguesa estão os acordistas a tentar promover...

Ricardo Migueis | DINÂMIA/ISCTE | Editor da Revista Autor

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Ramiro S. Osório - O ACORDO VAI NU?

"Meti toda a minha vida a saber desenhar como uma criança." (Picasso)

É desse modo que é preciso demonstrar que um acordo ortográfico não pode fazer o que os seus defensores dizem que pode. Talvez alguns saibam que não pode. Talvez o móbil seja outro. E andam uns mitos no ar.

"ALGUNS MITOS MENORES POSTOS À CIRCULAÇÃO" PELOS DEFENSORES DO "ACORDO":

1º MITO

"A EXISTÊNCIA DE DUPLA GRAFIA LIMITA A DINÂMICA DO IDIOMA E AS DIFERENÇAS CRIAM OBSTÁCULOS (...)"
Fonte: "Acordo Ortográfico do Português: perguntas frequentes")

Essa afirmação dos defensores não corresponde à realidade.
A DUPLA GRAFIA NÃO CRIA REAIS OBSTÁCULOS DE COMUNICAÇÃO.

NÃO HÁ ACORDO ORTOGRÁFICO QUE POSSA MELHORAR A COMUNICAÇÃO ENTRE OS 8 PAÍSES DA COMUNIDADE DE PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

Porque:

Uma língua é um meio de comunicação.
A língua portuguesa sempre permitiu e continua a permitir - com êxito - a comunicação entre os 8 países da CPLP.
Se a comunicação não é total entre esses países, é por causa dos obstáculos criados pelas diferenças lexicais, e não pelas diferenças ortográficas.

Quando lemos um texto, a sua compreensão não se perde com os erros ortográficos: ótimo, afeto, ação, úmido.
Quando lemos um texto, a sua compreensão perde-se quando lemos: camisola, privada, cara, curtir e afinal essas palavras não significam o que significam em português e precisam (não de acordo ortográfico, mas sim:) de tradução porque nem todos vêem telenovela. No dicionário (inexistente) viria: camisa de noite, casa de banho, indivíduo, gozar.

O Embaixador de um dos países da CPLP contou-me que, há uns anos atrás, num dos países da Comunidade havia uma grande falta de livros. O Brasil enviou milhares de livros. Esses livros nunca foram distribuídos porque a leitura seria dificultada por esses livros não estarem escritos com a mesma ortografia.

Ora, se o "acordo" entrasse em vigor... O FUNDO DO PROBLEMA SUBSISTIRIA.
A ortografia não é a língua. Não interessa escrever com forma igual palavras com significados diferentes (homónimos, na realidade), quando para mais: elas serão articuladas por SINTAXES DIFERENTES, num discurso também não unificado por causa de LÉXICOS DIFERENTES.

QUER DIZER QUE – ao contrário do que dizem os seus defensores – UM ACORDO ORTOGRÁFICO NÃO MELHORARIA A COMUNICAÇÃO ENTRE OS 8 PAÍSES DA CPLP.

2º MITO

"NOS FÓRUNS INTERNACIONAIS, COMO A ONU, OS DOCUMENTOS OFICIAIS NÃO TERÃO QUE SER MAIS TRADUZIDOS PARA AS DUAS VARIANTES DA LÍNGUA LUSA, COMO ACONTECE AGORA."
(Fonte: www.gopetition.com/online/17740.html)

(Antes de mais, uma rectificação técnica:
Raio de pouca sorte, a própria frase citada precisa de tradução: "não terão que ser mais traduzidos" não é português. E "língua lusa" (também) não é terminologia portuguesa.)

AO CONTRÁRIO DO QUE AFIRMAM OS DEFENSORES DO "ACORDO", AFIRMO QUE - SE ELE FOSSE ADOPTADO - NA ONU, etc. CONTINUARIAM A SER NECESSÁRIAS DUAS VERSÕES DE TRADUÇÃO NOS DOCUMENTOS ESCRITOS (sintaxe oblige) E DUAS VERSÕES DE TRADUÇÃO ORAL (pronunciação oblige).

Falando de ONU, vem a propósito corrigir mais dois erros que muito frequentemente os defensores do "acordo" fazem (e não são os únicos).

O PORTUGUÊS NÃO É A ÚNICA LÍNGUA SEM GRAFIA OFICIAL.
NÃO É NECESSÁRIO UMA LÍNGUA TER UMA GRAFIA OFICIAL PARA PODER SER ADOPTADA COMO LÍNGUA DE TRABALHO NA ONU.

PROVA DISSO:
O padrão da ONU para os documentos escritos em língua inglesa (United Nations Editorial Manual) segue o " British usage " e o " Oxford spelling ". (1)
(Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/United_Nations

De onde se pode concluir que a língua inglesa é uma língua oficial da ONU apesar de não ter uma grafia unificada.

CONCLUSÃO:

A língua portuguesa sempre permitiu e continua a permitir - com êxito - a comunicação entre os 8 países da CPLP.
Vimos que:
1) NOS PAÍSES LUSÓFONOS, UM ACORDO ORTOGRÁFICO NÃO MELHORARIA A COMUNICAÇÃO
2) NA ONU, ETC., CONTINUARIAM A SER NECESSÁRIAS DUAS VERSÕES DE TRADUÇÃO NOS DOCUMENTOS ESCRITOS (sintaxe oblige) E DUAS VERSÕES DE TRADUÇÃO ORAL (pronunciação oblige).

ENTÃO UM ACORDO PARA QUÊ?
(É que o acordo talvez não vá nu, mas mascarado. E não me referirei neste artigo à negociata livresca, que é fresca. E mais outras que haverá).

DIZEM OS DEFENSORES QUE ASSIM O IDIOMA PORTUGUÊS ENTRARIA NA ONU.

Acontece que a petição para o "idioma" português entrar na ONU está redigida no "idioma" brasileiro (digo idioma porque idioma é a língua própria de uma nação. Assim se pode dizer que na CPLP estão presentes oito idiomas de uma língua comum).

Como Coimbra não é Oxford, nem Portugal soube prestigiar a sua língua como o Reino Unido o fez, penso que não é um processo de intenção prever que, no futuro, a "mais-valia" dos milhões que o Brasil representa faça que a língua internacional – com ou sem "acordo" - seja o brasileiro e não o português. MAIS UMA RAZÃO PARA SER CONTRA O ACORDO.

Se no futuro, tivermos de falar brasileiro para sermos entendidos "lá fora", mais uma razão para lutar para podermos continuar a falar e a escrever português "cá dentro" (by the way, eu sou o autor deste conceito que irmanou Portugal ao "lá fora").

Se o pretendente ao Conselho de Segurança da ONU é o Brasil, por que é que o Brasil não leva para a ONU o “português do Brasil" (como lá se diz) e nós (e outros países da Comunidade, se assim o entenderem) continuamos com o português? É para nos pouparem que não nos transformemos numa língua morta? Alguém pode pensar que é por decreto que uma língua não envelhece e não morre? Quem acredita que foi por não compactuar com um "acordo" que o grego clássico e o latim morreram?

Claro que não posso terminar sem aqui deixar claro o seguinte:
O problema "ACORDO" transformou-se em matéria melindrosa. Em vez da unificação proclamada pelos seus defensores, vejo criarem-se abismos entre amigos brasileiros e portugueses, tal como entre amigos portugueses. É-me doloroso porque sou brasileirófilo e português.


(1) Deixo esta nota de roda pé porque considero interessante ver como países saxónicos podem ser mais ciosos da etimologia grega e latina do que alguns países latinos.

Oxford spelling (or Oxford English spelling) is the spelling used in the editorial practice of the Oxford English Dictionary (OED) and other English language dictionaries based on the OED, for example the Concise Oxford English Dictionary, and in academic journals and text books published by Oxford University Press. In digital documents, the use of Oxford spelling can be indicated with the language tag en-GB-oed.
Oxford spelling follows British spelling in combination with the suffix -ize instead of -ise. For instance, organization, privatize and recognizable are used instead of organisation, privatise and recognisable. In the last few decades, the suffix -ise has become the usual spelling in the UK. Therefore, many people incorrectly regard -ize as an Americanism, although the form -ize has been in use in English since the 16th century. [1] The use of -ize instead of -ise does not affect the spelling of words ending in -yse, which are spelt analyse, paralyse and catalyse in line with standard British usage.
In the Oxford English Dictionary, the choice to use -ize instead of -ise is defended as follows: "[...] some have used the spelling -ise in English, as in French [...] But the suffix itself, whatever the element to which it is added, is in its origin the Greek -izein, Latin -izare; and, as the pronunciation is also with z, there is no reason why in English the special French spelling should be followed, in opposition to that which is at once etymological and phonetic. In this Dictionary the termination is uniformly written -ize."
(Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Oxford_spelling)

Ramiro S. Osório | Utente da língua e escritor

domingo, 6 de julho de 2008

Vasco Graça Moura: Acordo Ortográfico — A omeleta estragada


«Há gente que pretende fazer uma omeleta ortográfica a toda a pressa. Mas não quer que se veja que os ovos estão de todo impróprios para consumo e muito menos analisar o estado em que eles se encontram. No fundo, este é um problema mais para a ASAE do que para a CPLP...»




A CPLP vai reunir em Lisboa em 20 e 21 de Julho. É possível que o Acordo Ortográfico volte sorrateiramente a fazer parte da agenda.

Pelo sim, pelo não, e para que não haja falhas de cabal esclarecimento, os signatários da petição manifesto em defesa da língua portuguesa estão a entregar nas embaixadas dos países membros da CPLP um dossier com todos os pareceres negativos sobre o AO que, de resto, se encontram arquivados e disponíveis no seu blogue oficial (http://emdefesadalinguaportuguesa.blogspot.com/).

A petição, que já ronda as 80.000 assinaturas, deverá ultrapassar as 100.000 dentro de três semanas. Quando for discutida na Assembleia da República terá muitas mais. Mas para já, será um firme e oportuno enquadramento da sociedade civil para a reunião da CPLP.

Entretanto, tive oportunidade de verificar que o Governo induziu escandalosamente em erro o Parlamento, a propósito do AO.

Lia-se no sétimo considerando da proposta de resolução nº 71/X/3, enviada à AR para aprovação do segundo Protocolo Modificativo que “o actual Governo consultou, através do Instituto Camões, as diversas entidades relevantes nesta matéria, como a Academia das Ciências de Lisboa, a Associação Internacional de Lusitanistas, a Associação Portuguesa de Escritores [sic] e Livreiros, a Associação Portuguesa de Linguística, a Fundação Calouste Gulbenkian e a União de Editores Portugueses”.

O Primeiro-Ministro e os ministros dos Negócios Estrangeiros, da Presidência e dos Assuntos Parlamentares invocavam nesses termos as consultas feitas a entidades com peso científico, além das feitas àquelas que, por razão empresariais, teriam interesse em manifestar-se.

Qualquer pessoa desprevenida acreditaria que as respostas recebidas eram globalmente positivas e favoráveis.

Mas não foi assim.

Positiva foi apenas a da Academia das Ciências, em causa própria e com um parecer da pena de Malaca Casteleiro…

A Associação Internacional de Lusitanistas, consultada em 4.10.05, não respondeu.

A Fundação Gulbenkian disse, em 24.11.05, que aplicaria o AO às obras que editasse, após a sua entrada em vigor. Isto é, que cumpriria a Lei.

A Associação Portuguesa de Linguística, num extenso e fundamentado parecer de 12.12.05, pronunciou-se pela imediata suspensão do processo em curso. No mesmo sentido, em 1.11.05, o Departamento de Linguística Geral e Românica da Faculdade de Letras de Lisboa. E o Instituto de Linguística Teórica e Computacional, tendo levantado vários problemas, afirmou: “De qualquer modo, o Acordo ortográfico terá sempre consequências bem mais graves que a existência actual de duas normas, sobretudo na língua escrita no âmbito da Internet” (28.10.05).

É tudo. Outras entidades universitárias consultadas não chegaram a dar resposta, nem houve qualquer insistência para que a dessem.

As editoras e associações de editores manifestaram outro tipo de preocupações e fizeram perguntas que não foram respondidas.

Assim, o Governo não fez só tábua rasa dos pareceres negativos anteriores: veio invocar perante a AR este panorama contraditório dos fins que tinha em vista e louvou-se nele para fundamentar a sua proposta de aprovação do Protocolo, o que é uma fraude pura e simples.

Entretanto, continua a não ser conhecido o teor do estudo sobre a língua portuguesa que foi entregue ao Governo há já várias semanas.

Continua a não se saber qual é a posição da Ministra da Educação quanto ao Acordo Ortográfico.

E surgem notícias curiosíssimas como a do Sol de 28.6.08, segundo a qual cerca de 150 docentes e investigadores discutiriam em Coimbra, anteontem e ontem, “os desafios que se colocam ao ensino da língua portuguesa desde o pré-escolar ao básico, nomeadamente com a introdução do Acordo Ortográfico”, num encontro que terá reunido professores do ensino básico e superior, entre os quais dois numerosos docentes da Universidade.

Há gente que pretende fazer uma omeleta ortográfica a toda a pressa. Mas não quer que se veja que os ovos estão de todo impróprios para consumo e muito menos analisar o estado em que eles se encontram. No fundo, este é um problema mais para a ASAE do que para a CPLP…

Vasco Graça Moura | Escritor | Diário de Notícias | 2/7/2008

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Maria Alzira Seixo: A FEIRA DOS INSULTOS

Acusações ao Desacordo e CPLP
Desde que a petição Em Defesa da Língua Portuguesa está em linha, e se notou que as assinaturas nela surgiam a um ritmo vertiginoso (média de mil por dia), começaram a chover insultos caluniosos sobre os que apontam erros e incongruências ao Acordo Ortográfico

Puristas, saudosistas, retrógrados, salazaristas, fundamentalistas – são qualificativos com que frequentemente nos mimoseiam, em intenção que não é de afago nem de neutralidade.

Mostra-me a experiência que insultos e calúnias resultam de dois sentimentos: a consciência de interesses pessoais ameaçados ou a vaidade pessoal ferida. Lembro-me de ser caluniada por pessoa amiga que passei a ignorar após uma ofensa documentada, e há poucos anos insultaram-me na imprensa por eu ter criticado a negociata dos livros escolares. Estes casos facilitam-me a consideração da situação presente, quer na ordem ética quer na dos interesses.
Que a análise concludente que os desacordistas têm apresentado sobre o texto do Acordo Ortográfico e suas implicações no futuro da Língua venha ferir a vaidade dos que lhe estão mais ligados, compreende-se. Mas nem são eles quem profere os insultos mais sonantes, pois sabem do que falamos e compreendem a justeza do que dizemos – só não lhes interessa confessá-lo.

Mas há uma terceira razão para os insultos, que é a de não haver argumentos contra os males que denunciamos, e se recorrer portanto a chavões banais de rejeição.

Somos puristas porquê? Recusamos galicismos como «toilete», «enquanto que» ou «griffe»? Anglicismos como «delete» (tão próximo, aliás, do «deleatur», corrente latinismo dos revisores tipográficos), «lobbies» ou «paper» (que não é exactamente a mesma coisa que uma «comunicação»)? Rejeitamos palavras como «mail» ou «surfar»? Nunca dei por isso.
Parece que somos puristas por querermos preservar o travejamento da Língua, de modo a que ela mantenha o seu carácter perante as evoluções que o uso dos falantes lhe vai naturalmente, e socialmente, imprimindo. Mas isso não corresponde a manter uma «pureza», antes a «integridade individualizadora» da Língua que constitui património e modo de ser e existir – tal como uma operação de estética deve restaurar feições em caso de acidente sofrido, ou reparar a usura do tempo que as corroeu, mantendo essa mesma integridade do indivíduo, e não mudando-o em «um outro», que é o que Acordo vai fazer com a Língua.

Somos saudosistas porquê? Porque queremos ressuscitar formas obsoletas de escrever? Nunca vi nenhum desacordista defender tal coisa. Ou porque temos saudades do tempo em que a escola ensinava um Português sólido, que fazia de cada alfabetizado um indivíduo capaz de se exprimir sem erros de gramática (como acontece hoje a muitos membros do Governo e, correntemente, a jornalistas, e até, céus!, a professores), e não tinha havido a necessidade de criar a palavra «iliteracia»? Nem sequer temos saudades de tal tempo, pois, se isso era de facto bom, e dizê-lo não corresponde a saudosismo mas é componente da análise objectiva do passado, era em contrapartida muito mau que nem todos tivessem acesso à alfabetização, e que ela se fizesse com as condicionantes de privação da liberdade e outros bens essenciais à expressão individual.

Somos retrógrados porquê? Avançou-se em alguma coisa na expressão linguística em relação à qual nós pretendamos retroceder? Isso aconteceria se o Acordo Ortográfico consagrasse, no seu texto, uma ortografia que correspondesse a uma evolução da língua praticada pelo uso dos falantes, que são os donos da língua. Se alguém tem dúvidas de que isso existe, pois existe, sim, senhor: a língua tem donos, que somos nós todos, os que a falamos – mas não para a escrever com erros, não para a alterar ao sabor de caprichos, insuficiências ou interesses, mas para nos apropriarmos dela e utilizá-la em comunidade, desse uso comum resultando uma transformação gradual que a enriquecerá ao mesmo tempo que a mantém, em vez de a alterar, isto é, fazer dela literalmente outra. Porque transformar é abrir o «mesmo» ao «outro», permitindo o diálogo e a inter-acção mas mantendo a identidade, ao passo que alterar é fazer com que uma coisa passe a ser outra, isto é, perca a sua identidade.
O que o Acordo faz, ao invés, é introduzir na ortografia alterações que não correspondem ao uso dos falantes, são impostas do exterior (não pelos donos da língua, mas pelos patrões dela, o patrão «antigo e arruinado, com títulos de nobreza europeia», que é o Governo Português, e o patrão «jovem e dominante, com o mundo à sua frente», que é o Governo Brasileiro), alterações essas determinadas por interesses político-económicos conjecturais, que vão fazer da Língua Portuguesa uma algaraviada luso-brasileira imposta a todos (que desconsidera as componentes africana e austral), em vez de aceitar o que desse hibridismo venha a resultar no futuro pela inter-acção social resultante do convívio e das trocas culturais e comerciais, como acontecerá numa efectiva Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Estas, sim, é que são de incentivar em termos político-económicos. Essas, sim, é que seriam passíveis de uma verdadeira reforma ortográfica que consagrasse um uso acontecido. O que o Acordo não é. Está-se a proceder, pois, ao contrário – e por isso os retrógrados, reparem bem! não somos nós.

Somos salazaristas porquê? Porque achamos que, no tempo do Salazar, quem sabia ler e escrever o fazia muito bem? Já esclareci que nenhum de nós tem saudades desse tempo (muitos dos desacordistas nem sequer chegaram a conhecê-lo, para bem deles). Mas, se alguém achar que manifestar apreço pela habilitação para bem ler e bem escrever é ser salazarista, então só posso concluir que o ensino e a prática actuais da Língua Portuguesa vão tão mal que afectam a capacidade de pensar e as premissas mais básicas do raciocínio! Isto, se partirmos do princípio que quem nos ataca está de boa fé, bem entendido – o que é duvidoso, se considerarmos que as pessoas ligadas ao Acordo, nos meios políticos e intelectuais, têm interesses no Brasil, e que muitos dos linguistas e literários dos PALOP fizeram carreiras universitárias com esses simpatizantes e com o Autor do dito, e a eles estão ligados.
Também sabemos que o significado de muitas palavras se alargou, e que o sentido sofre de uma impertinência e frouxidão que faz com que se possa chamar quase tudo a quase todos, com o crescente endeusamento da «opinião» (a qualquer bicho careta é reconhecida legitimidade para expender ideias sobre assuntos especializados, em nome da «democracia», que se esvazia cada vez mais num «vale tudo» de luta livre verbal dominada pelos interesses, pela retórica e pelo exercício indiscriminado do poder). Nestas condições, salazarista pode ser até aquele que viveu no tempo do Salazar – e isso pelo menos eu sou, ai de mim! Mas salazarista, no meu modesto entender, é quem exerce o poder de modo ditatorial, fechado às opiniões dos outros, sem escutar argumentos adversos e impedindo a livre crítica de circular, fechando-se num círculo delimitado pelos interesses de alguns. E foi isto mesmo que aconteceu com a aprovação do Acordo ortográfico, e sucessivas ratificações, não se solicitando a opinião de especialistas, ou, quando tal se fez, sonegando-a e impedindo-a de circular, como aconteceu com o parecer da Associação Portuguesa de Linguística de 2005 ou com a carta do catedrático linguista Ivo de Castro ao Instituto Camões, apenas dois exemplos de opiniões negativas silenciadas – e o parecer de Ivo de Castro tem justamente em conta sobretudo o fosso que o Acordo vai criar nos países da CPLP, pela secundarização de vários deles nesta matéria. Quem são então os salazaristas?!

E somos fundamentalistas porquê? No que me diz respeito, trabalho há duas décadas sobre multiculturalismo (tenho várias publicações na matéria), gabo-me de ter sido a primeira universitária portuguesa a escrever sobre literatura africana, em tempos em que esta disciplina ainda nem existia nas universidades lusas, e quando presidi a uma associação internacional consegui associar aos trabalhos de direcção um israelita e um árabe, e isso em 1991 – os que se lembram desses tempos sabem que tal não era fácil... E ponho-me a cogitar: em que é que serei fundamentalista?
Será por defender os fundamentos da Língua Portuguesa, como defendo valores e ideias fundamentais, o estudo, o trabalho, a seriedade, a competência, a orgânica familiar ou os alicerces de uma casa? Pois defendo! Mas não estudo o tempo inteiro, também me rio, informo-me quanto ao que não sei, e não construí nenhum prédio, nem mantive família regular, nem fiquei ligada a partidos políticos. Sou independente de esquerda, de habitação e de vida pessoal! E integro-me na comunidade, não por interesses nem por facções, mas por dedicação, amor ao ensino, e ética.
E os outros desacordistas, depreender-se-á que defendem fundamentalismos como: se as mulheres muçulmanas usarem o véu em Portugal, as portuguesas deverão recomeçar a usar todas o véu nas igrejas católicas, ou até fora delas, para maior harmonização no vestuário, facilitação do pronto-a-vestir e glória e expansão económica dos nossos têxteis?
Haja Deus! Allah hu Acbar!

Concluo: efectivamente, quando não há argumentos, atiram-se nomes feios; e quando não convém dialogar com razões evidentes, atira-se-lhes com qualificativos que possam denegrir a intervenção de quem pensa, simulando assim arrumar o caso.
Fico, porém, com uma dúvida. É que algumas das pessoas que procedem desta maneira são inteligentes, e portanto percebem-nos. E é claro que, no fundo, pretendem preservar, neste caso não a Língua, mas as suas próprias alianças, os seus interesses, e em última análise a sua teimosia. Mas, como são inteligentes, também percebem que este tipo de atitude (atirar com nomes feios, ou deixar andar...) só revela o desespero de quem reconhece a fragilidade da posição assumida, e a recusa liminar de entrar no diálogo e reconsiderar a questão. Como é possível? Pensar-se-á, como os absolutistas, que «O Estado sou Eu» e que «Depois de mim, o Dilúvio», perdendo de vista a ideia basilar da existência em comunidade, que é a de atentar no presente tendo em vista a manutenção do futuro?

Maria Alzira Seixo
Presidente da Federação Internacional de Línguas e Literaturas Modernas
(mandato 1999-2002)