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sábado, 26 de julho de 2008

João Roque Dias - Que as comam eles!

Numa terra cujo nome não vem agora ao caso, havia – sempre houve – uma mercearia. O proprietário do estabelecimento, o Sr. António, sempre danado para o negócio, oferecia aos seus clientes de tudo e do melhor que podia encontrar. E se havia algo que levava os fregueses a fazerem bicha à sua porta, era o chouriço. Aquele chouriço que vinha direitinho das matanças de outras terras, todas vizinhas da sua mercearia. Era chegar e andar, que os fregueses não o deixavam ficar nas prateleiras por muito tempo. Depois, acho que por causa de um "brasileiro" que por lá viveu, o Sr. António começou também a vender "linguiça brasileira". Coisa fina. Diferente, mas também muito apreciada. Afinal, o pessoal do outro lado do mundo aprendeu a fazê-la com as receitas antigas de gentes das terras do lado de cá, a que foram acrescentando os seus gostos. Diferente, sim, mas com bom tempero. O Sr. António dizia até que só não vendia petróleo de Angola em garrafas, porque não o deixavam...

Com o negócio a medrar, o nosso merceeiro resolveu diversificar a oferta e, em espaço bem arranjado, abriu um restaurante. A Florência, cabo-verdiana de nascimento, mas portuguesa no coração e nos papéis, tomou conta da cozinha. Foi mais uma roda-viva lá na terra. Nas mesas sempre cheias comia-se, lado a lado, bacalhau com todos a preceito, cachupa de chorar por mais, moamba de lamber os dedos, picanha assada no melhor ponto e, para as sobremesas, a genial cozinheira preparava um leite-creme de fazer corar os anjos, mas também coisas que desencantava noutras paragens, como as cocadas do Brasil.

Um dia, acho que por inícios dos anos 90 do século passado, sem que se saiba bem porquê, alguns cozinheiros de países onde se fala e escreve o português – de modo tão variado como a comida que por lá se come – sentaram-se à mesa com o firme propósito, asseguravam eles, de uniformizar, por meio de um miraculoso acordo, o aspecto das comidas desses países. Foi o desassossego! Para acalmar os que não acreditaram em tal propósito (há sempre os "saudosistas" da comida tradicional), os cozinheiros-acordistas juraram piamente que só o aspecto dos pratos iria ser uniformizado, que não, que o sabor continuaria a ser o de cada um, que sim, que cada um poderia continuar a cozinhar com os seus próprios ingredientes, que obviamente, os cozinheiros artísticos poderiam continuar a empratar como quisessem, que, evidentemente, a coisa era absolutamente necessária para inundar o mundo inteiro com a comida portuguesa (então as pizzas italianas e os hambúrgueres americanos não o tinham feito?) e para as criancinhas (de 6 ou 7 anos, esclareceram até os cozinheiros-acordistas) poderem escolher mais facilmente os pratos nas ementas ilustradas das cantinas escolares e que a coisa se impunha mesmo, porque nos refeitórios das Nações Unidas andava tudo louco (juravam eles...), porque os portugueses e os brasileiros insistiam em pedir pratos diferentes, apesar de confeccionados com ingredientes muito parecidos, que o novo aspecto, depois de uniformizado, iria abrir as portas a uma política gastronómica a sério, e que não, que ninguém queria mudar os pratos, mas apenas o seu aspecto exterior, e porque sim, que sim, e porque sim senhor. Os que não viam na coisa vantagem, ou até piada alguma, continuavam a querer comer bacalhau a parecer bacalhau, picanha com cara de picanha e moamba que, só pelo aspecto, só podia ser moamba! Diziam até que o aspecto da comida faz também parte do seu paladar e que os olhos também comem! E avançaram com pareceres de gente entendida em coisas de comer a dizer que a ideia era disparatada. Qual quê? Alguns adeptos da nova salgalhada gastronómica começaram a chamar-lhes até “fundamentalistas” e “salazaristas”! Os cozinheiros-acordistas da tal comida de fusão, toda nouvelle, perderam a cabeça e, um a um, com os passaportes bem levantados acima das suas cabeças, gritaram, numa patética e ridícula profissão-de-fé: nós não somos os donos da comida! Nós não podemos obrigar (como se alguém alguma vez tivesse obrigado alguém...) os brasileiros a comer chouriço português, os portugueses a comer linguiça brasileira, os timorenses a comer galinha à moçambicana e os cabo-verdianos a comer moamba angolana. Temos que fundir isto tudo em pratos de aspecto unificado, em que todos os de fora podem mexer na panela de cada um dos de dentro. E até arranjaram uma regra muito simples (números sempre são números, não é?): quem tiver mais pessoas à mesa fica com o direito de mandar na cozinha de todos os outros! Quando passaram tudo a escrito, sim, que estes cozinheiros-acordistas gostam de escrever, sob o título “Acordo Gastronómico da Comida Portuguesa" a regra ficou ainda mais clara: quando a comida brasileira era diferente da portuguesa, os pratos poderiam, facultativamente, ser confeccionados à moda brasileira ou à moda portuguesa; mas quando a comida portuguesa era diferente da brasileira, os pratos teriam que ser apresentados à moda brasileira. Sobre a comida dos outros países, o acordo era mudo, cego e paralítico: que comessem a comida feita nas cozinhas brasileiras e portuguesas, para, depois, quem sabe, poderem olhar orgulhosos para a expansão de uma comida que, não sendo só deles, também podem chamar deles. Na regra dos milhões, os que são mais podem mexer nos tachos de todos. As virtualidades desta mixórdia repelente à vista e sensaborona na boca não são claras para ninguém, mas têm uma vantagem: como o Brasil quer um lugar de cozinheiro nos refeitórios das Nações Unidas, sempre se pode candidatar com um livro de receitas de “comida lusófona unificada”. Os outros países do mundo, que sempre gostaram de provar os sabores de todos nós, hão-de admitir o candidato para confeccionar a nova comida “fundida”, defendem os cozinheiros-acordistas! Sem esquecer, claro, a outra vantagem, essa mais domesticamente lusófona: acaba-se com as casas de pasto e os talhos que os portugueses mantêm cordatamente nos outros países que comem português e substituem-se por botequins e açougues brasileiros. Sim, dizem os cozinheiros do acordo, que isto não é só vosso e "eles" são muitos milhões a mais...

Na mercearia do Sr. António (o pobre anda até a pensar mudar a tabuleta da loja para Antônio, para não perder o trem da grande expansão do negócio que lhe prometeram...) vende-se agora uma “chouguiça” desenxabida, talvez por causa dos temperos tropicais, como manda a lei dos cozinheiros-acordistas! A cozinheira Florência está a dar em doida: tem que cozer a chanfana em leite de coco e servi-la com tucupi, a moamba tem que a fazer com óleo de oliva, os panados são agora preparados com farinha de rosca, a cachupa deve parecer-se com o cozido à portuguesa-moda-do-Recife e as sobremesas têm que levar sempre um toque de leite moça. O António e a Florência não perceberam ainda é como é que esta nova comida travestida e de fusão lhes vai aumentar o negócio a nível internacional e andam seriamente preocupados com os quase 100 000 comensais portugueses, outrora fiéis da boa mesa portuguesa, brasileira, cabo-verdiana, angolana, moçambicana e macaense, que já declararam que não irão pôr mais os pés no novo restaurante! Comidas daquelas? Que as comam eles!

João Roque Dias | Tradutor (CT)
www.jrdias.com


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A Petição Contra o Acordo Ortográfico continua aberta e disponível para assinatura. Conta hoje com 88 912 assinaturas.

Assine-a em www.ipetitions.com/petition/manifestolinguaportuguesa.
Enquanto há Língua, há esperança.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Ricardo Migueis - Economia e língua

Não é a economia que anda a cavalo na língua, é a língua que anda a cavalo na economia. Economiza-se e facilita-se na língua para que se fale melhor economia. É assim que se define o argumento base dos acordistas, senão veja-se a entrevista do Ministro da Cultura no Jornal Expresso desta semana.

Mais uma vez, em nenhum momento, houve uma referência à língua enquanto expressão rica de identidades e povos, nem às alterações impostas pelo AO e em que medida estas contribuem para melhorar ou piorar a vida quotidiana de quem usa a língua para comunicar pela oralidade e pela escrita (todos…). Muito menos foi analisado o impacto em sectores específicos, como no ensino e no papel do professor da escola primária ou secundária, ou na aprendizagem dificultada pela incoerência acordista. Tal qual um crente na vidência, ou um lutador que baixou as luvas, acredita-se simplesmente que Portugal já não tem trunfos. O Brasil é o grande país da cena internacional de amanhã e como já se acabou a época de ouro do investimento directo português no Brasil, usemos a língua. Como se o acordo fosse ajudar a agarrarmo-nos aos calcanhares de um país tão diverso… como se o impacto do AO fosse miraculosamente fazer o Brasil virar os olhos para Portugal como se de mais um estado federal brasileiro se tratasse.

A grandeza do Brasil e de Portugal é muito maior que a pequenez desse desígnio. Há muito trabalho a fazer no âmbito de uma política de língua que permita que esta não seja mais uma moeda desvalorizada. Além disso, repito pela enésima vez… é de língua que estamos a falar, embora não pareça.

Ricardo Migueis | DINÂMIA/ISCTE | Editor da Revista Autor

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Ricardo Migueis - O falso argumento: o Acordo Ortográfico e a expansão e afirmação internacional da língua portuguesa

A única influência efectivamente sentida no plano internacional pelas alterações introduzidas pelo Acordo Ortográfico, poderá vir exactamente da sua pior característica: o facilitismo subjacente à homogeneização com base na oralidade (brasileira, apenas). Que este facilitismo prejudicará a aprendizagem da língua já foi aqui e noutros meios exposto diversas vezes. Concentremo-nos no possível impacto do AO para a representação/presença/afirmação da língua portuguesa em fora internacionais. Ele será reduzidíssimo:
- não será por ele que a CPLP se tornará uma entidade supranacional reforçada e representativa, isso exigiria vontade política de outra natureza. O facto de a União Europeia não ter uma língua comum pode sair em caro em traduções, mas não impediu a integração política, económica e um saudável intercâmbio cultural e social;
- não colocará o português como língua oficial no Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio ou Nações Unidas, se isso vier a acontecer será em virtude do desenvolvimento económico do Brasil, que pela sua escala em número de habitantes e Produto Interno Bruto poderá ganhar peso nestas instituições;
- não será factor relevante para ajudar o Brasil a conseguir um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU;

Em recente entrevista ao jornal Expresso, o Professor Carlos Reis (Reitor da Universidade Aberta), diz, na mesma senda, que os “falantes (da língua portuguesa) são em parte integrados por povos e países que, infelizmente, contam pouco no concerto internacional”. No entanto, e ao contrário do que o mesmo adianta naquela entrevista, dificilmente se entenderá a correlação directa que ele parece querer estabelecer, entre o AO e a projecção das universidades portuguesas no exterior, seja em África, na Ásia ou em qualquer outro lado. A língua continuará a ser distinta e os factores de atractividade de alunos estrangeiros, ou de qualidade, não se prenderão certamente com a existência de uma ou duas normas ortográficas.

Acrescente-se à lista de correlações difíceis de compreender, ainda no âmbito do tão desejado objectivo de expansão e afirmação internacional da língua portuguesa, o crescimento do número de pessoas a aprender português vs Acordo Ortográfico. Se o número de aprendizes da língua portuguesa já está em crescimento, certamente não será por causa do Acordo Ortográfico, mas sim devido à afirmação internacional do Brasil e, em parte de Angola.

Parece estranho que se peça que nos olhemos isoladamente Portugal, em toda a sua “pequenez e necessária subjugação”, e de seguida se peça que Portugal tenha uma política de língua estruturada, clamando-se que esta vai em muito contribuir para a expansão da língua portuguesa. É claro que vai, mas não será por causa de qualquer AO. A política de língua precisa de ser bem definida, é fabuloso que se ande a trabalhar nela. Só é pena que nenhum dos pilares desse trabalho seja… a língua em si.

Enfim, é impossível e não desejável a unificação fonológica, morfológica, sintáxica e lexical da língua portuguesa entre todos os países da CPLP. Não será possível transformar a CPLP numa grande federação de países em que a língua falada e escrita é, de facto, unificada. Não será minimamente desejável desvalorizar as singularidades locais em prol de uma comunidade unificada por um idioma comum. As singularidades enriquecem o património comum. Por tudo isto e muito mais, o argumento que faz depender a vitalidade da língua portuguesa de um qualquer Acordo Ortográfico, é falso. Além disso, convinha reflectir um pouco sobre que língua portuguesa estão os acordistas a tentar promover...

Ricardo Migueis | DINÂMIA/ISCTE | Editor da Revista Autor

terça-feira, 8 de julho de 2008

A. M. Machado Pires - Tardiamente lastimáveis

Estar com o princípio de um acordo é uma coisa; subscrever este é outra. Divergir deste acordo não é nem ser “fundamentalista”, nem “patrioteiro”, nem querer estar “orgulhosamente sós”, coisa que, sem o “orgulhosamente”, nos está a suceder em muitos aspectos da vida nacional. O português tende a condenar, depreciar ou mesmo apontar à execração aquilo que pensam os que não pensam como ele. Uma espécie de cartesianismo egolátrico: cogito, ergo tenho razão!
Criar múltiplas facultatividades e alternativas, escrever ao sabor da tolerância ou da oralidade é semear a confusão entre os professores, os alunos e os estrangeiros que querem aprender com clareza a língua portuguesa. Porque muita coisa mudou ao longo do tempo, nem tudo pode mudar como se quer. Nem “por decreto”. Acaso têm muitos a consciência científico-linguística de que as línguas mudam, evoluem, “estropiam-se” segundo leis fisiológicas, usos que se consagram e só depois se reconhecem?
E as abstrusões resultantes da supressão do hífen em palavras compostas? E a falta de acentos, obrigando a depreender pelo contexto quando a língua sempre teve eficazes e precisos indicadores para o fazer? Amamos/amámos, ficamos/ficámos, etc. O opinante comum (com o devido respeito) favorável ao acordo saberá que á/a é/ê ó/ô são fonemas e o que isso comporta? E o brasileiro vai mesmo deixar de pôr o trema na linguiça, na linguística, no arguido?! Arguido em português não o tem: por isso já se ouviu pronunciar “arguído”! Sempre que se pode indicar, deixe-se ficar o indicador; antecipa-se a explicação e evita-se a calinada. "A secretaria secretaria o chefe todos os dias" . É repetição ou gralha? Logo se dirá que o contexto resolve. Mas antes que a cabeça reconheça pelo contexto, provavelmente já saiu mal lido ou
hesitado.
Os linguistas estão longe da unanimidade; os professores, os escritores, os políticos (estes nem sempre pelas melhores razões), o cidadão comum também hesitam. Então por que não reanalisar o acordo? Não ao “orgulhosamente sós”? Decerto… Mas pior seria o tardiamente lastimados. Uma má obra pública arruína temporariamente o erário público. Um atentado à língua mina duradoiramente um património de um Povo. Irremediavelmente, porque a evolução da língua não tem retorno.
O orgulho de posições deve dar lugar a uma serena análise enquanto é tempo. Citando uma antiga aluna: a fórmula da sabedoria é “uma colherinha de orgulho e duas de humildade”.

A. M. Machado Pires, Ex-reitor da Universidade dos Açores / Filólogo e Historiador da Cultura

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Acordo Ortográfico: o Tratado de Tordesilhas revisitado

Reúno aqui alguns dos pontos que, a meu ver, sumariam as gravíssimas condições, substanciais e processuais, que configuraram o presente Acordo Ortográfico (AO), remetendo para os inúmeros pareceres mais técnicos e aprofundados a análise pormenorizada das discrepâncias e erros que manifesta, e com os quais não devemos contemporizar.

A minha posição quer ser a de um cidadão informado e com vontade de reflectir criticamente sobre as informações de que (já) dispõe.

Eis o que me ocorre dizer, neste momento:

1. Reforçar a gravidade da falência da discussão do AO, bem como da sua consubstanciação, em sede própria: a sede científica. Os autores do AO escusaram-se, ao longo dos anos, a uma discussão científica séria, através de uma não-audição sistemática dos parceiros que, em Portugal, têm opinião cientificamente validada sobre a matéria. Tal autismo é contrário a qualquer processo de validação científica, independentemente da área em que ele ocorra.

2. Sublinhar a institucionalização, que este AO realiza, da dupla ou mesmo múltipla grafia (são inúmeros os exemplos, e caricatos os resultados), quer entre as normas de diferentes países, quer dentro da norma de um mesmo país. Este Acordo pode ser um Acordo (e já falarei dos seus equívocos a este respeito), mas não o é certamente pela razão politicamente aduzida, e que seria a de uma necessária (?) unificação ortográfica – mito derrubado pelas múltiplas grafias que oficializa.

3. Recordar algumas consequências: por exemplo a destruição de certas famílias etimológicas (facção/faccioso), com perturbação da inteligibilidade da língua como construção semântica e histórica.

4. Apontar a confusão inaceitável entre língua e ortografia, não se reconhecendo o carácter desnecessário de um acordo que, mesmo que seja apenas ortográfico (e já vimos que não produz a apregoada unificação), não contempla (como não poderia contemplar) nenhum outro plano da língua (morfo-sintáctico e lexemático). Mesmo a feitura de um vocabulário comum, ainda se apenas técnico, nunca poderá vir a sobrepor-se a usos já sistematizados nas diversas variantes. E, a ser implementada tal unificação, ela deixaria de ser “apenas” ortográfica, para começar a ser… linguística. O AO é pois um logro: para existir, precisa de que a ortografia seja APENAS UM dos aspectos abordados. Mais uma vez, a sede para esta discussão é a comunidade científica, que não foi consultada como devia ter sido.

5. Lembrar o profundo desequilíbrio entre custos e benefícios. Aquilo que o AO vai custar, em termos económicos e humanos (sim, também estes), é incalculavelmente mais do que as algumas (e não todas as!) coincidências ortográficas que passará a permitir.

6. A arrogância, roçando o neo-colonialismo, por parte tanto de Portugal como do Brasil, imaginando que um Acordo negociado APENAS entre estes dois países poderia ser conduzido da mesma forma, em 1990 ou 2008, pela qual tinha sido conduzido em 1945 (data do anterior Acordo, firmado por ambos os países mas nunca aplicado no Brasil). Em 1945 havia, para o bem como para o mal, apenas dois poderes soberanos que entre si diziam repartir a língua, qual Tratado de Tordesilhas. Não é esse o caso em 2008. E Portugal já devia ter aprendido alguma coisa com o Tratado de Tordesilhas…

Helena Carvalhão Buescu | Professora Universitária | Universidade de Lisboa

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Afinal, ‘Ensaio sobre a Cegueira’ não é apenas um romance

Num pequeno texto (1) escrito 10 anos depois da assinatura do acordo ortográfico (Portuguese translation: What clients need to know), e que se tornou um clássico entre a comunidade de tradutores portugueses e brasileiros em todo o mundo, Lyris Wiedemann, professora da Universidade de Stanford e tradutora independente afirmou:

«...it is virtually impossible for a native speaker of one variety of Portuguese (European or Brazilian) to do a good translation into the other. Although there are unfortunately people who may feel, and announce themselves, as capable of translating or editing for both varieties, their work usually does not pass the simplest scrutiny of a native speaker».

O que terá levado uma tradutora com um mestrado em Didáctica da Linguística e um doutoramento em Linguística Aplicada a fazer tal afirmação? Muito simplesmente, o conhecimento prático do modo como se processa a comunicação pela via escrita – necessariamente através da utilização da ortografia. Ora, na língua portuguesa – em que existem duas normas ortográficas bem definidas e estabilizadas, quase centenárias (2), a norma euro-afro-asiático-oceânica e a norma brasileira – a tradução para qualquer uma destas normas utiliza necessariamente a língua e a linguagem próprias dos respectivos falantes (e, evidentemente, escreventes), através do léxico, da gramática, da morfologia, da sintaxe, da prosódia e de todos os restantes componentes da língua. Sonhar sequer que, com a implementação do acordo ortográfico (com minúsculas, devido ao número e calibre dos erros e disparates nele contidos), as duas normas linguísticas passariam a ter como que um salvo-conduto para circularem livremente em ambos os espaços linguísticos, constitui uma cegueira indesculpável.

As duas normas estabilizadas da língua portuguesa não chegaram até 1990 por nenhum passe de mágica ou milagre. Como não podia deixar de ser, aí chegaram por obra dos seus falantes e pelas influências recebidas de outras línguas e culturas. No caso do Brasil, por exemplo, ao contrário do português europeu, a influência do francês é insignificante e a marca do inglês americano na língua aí falada e escrita é omnipresente, sobretudo, e como não podia deixar de ser, na norma “culta” da língua.

Entre o português utilizado (pela fala e pela escrita) em Portugal e o português utilizado (pela fala e pela escrita) no Brasil, as diferenças mais insignificantes são as ortográficas: nunca as consoantes mudas – é bom não esquecer que o acordo foi fabricado para acabar com esta diferença ortográfica entre Portugal e o Brasil – impossibilitaram a compreensão de qualquer texto. As maiores diferenças – as que impedem frequentemente uma compreensão natural e escorreita da língua escrita pelos falantes da outra norma – residem no modo como são utilizados o léxico e a gramática. São estas diferenças que inviabilizam em termos práticos a utilização em Portugal das traduções feitas por brasileiros ou a utilização no Brasil das traduções feitas por portugueses. Refiro-me aqui, exclusivamente, às traduções de textos especializados (os linguistas chamam-lhes textos pragmáticos) necessários à vida dos cidadãos, das empresas e das organizações públicas, como a tradução de literatura técnica diversa ou de outras áreas, como o direito, a economia, a medicina, etc. Esta inviabilidade é pacificamente aceite, há já muitos anos, pela indústria das línguas: tradução para Portugal e os países africanos-asiáticos-oceânicos de língua portuguesa é para ser feita por tradutores portugueses ou dos respectivos países e tradução para o Brasil é necessariamente para ser feita por tradutores brasileiros. Subverter este princípio básico é abrir a porta ao disparate grosso e abundam os exemplos quando tal aconteceu. Por uma estranha extensão deste conceito, já cristalizado em todo o mundo, os clientes de tradução pedem-nos também traduções em português cabo-verdiano, angolano, moçambicano, timorense, etc. Os mais espertos (bem...é só fazer as contas...) pedem-nos até traduções redigidas num português “universal” ou “internacional”, para permitir a sua utilização directa, i.e., sem qualquer adaptação, do Minho a Timor com passagem pelo Brasil! Os acordistas, defensores do “português universal e expandido”, que o escrevam! Não irão faltar trapaceiros que lhes comprem o serviço, desde que seja a pataco! Faltarão, isso sim, é pessoas que o consigam ler com proveito!

Referindo-me apenas à área da minha especialização em tradução, a engenharia mecânica, não me passa sequer pela cabeça traduzir textos desta área para o Brasil: as máquinas que eu conheço não têm arruelas, munhões ou caçambas, nem são lubrificadas com graxa, os meus automóveis não têm caixas de câmbio, cilindros-mestre ou chapéus chineses, nas minhas estradas não existem greides, acostamentos ou canteiros centrais e o meu trabalho é feito em computadores que não têm mouses. Quanto à gramática do português europeu, os meus colegas brasileiros não a conhecem e eu também não conheço a deles. Conclusão nua e crua: o nosso trabalho (o meu ou o deles) «usually does not pass the simplest scrutiny of a native speaker». E para textos cuja compreensão imediata e natural pelos leitores a que se destinam é uma absoluta necessidade, não é a ortografia (unificada ou não) que assegura tal compreensão: alguém quer ler o manual da geladeira (frigorífico) comprado (assumo o erro na concordância) em Portugal numa língua que lhe é estranha, ou ter que folhear um dicionário contrastivo (existe algum verdadeiramente sério?) a cada 3 ou 4 palavras, para poder pôr o coiso (ou será a coisa?) a funcionar? O acordo e os seus defensores querem e acham até que é possível. Cegueira completa!

Tudo isto ultrapassa, e muito, as estafadas anedotas sobre o nosso desacordo linguístico com o Brasil, como a péssima reputação das nossas raparigas em terras brasileiras, só por o serem, a recusa, estranha para nós, das mulheres brasileiras usarem cuecas, o seu extraordinário hábito de dormirem de camisola vestida (no Brasil, estranho é o Cristiano Ronaldo jogar com camisola, mesmo que seja das Quinas), a lavagem da louça ser feita na pia ou os plugues ligados às tomadas eléctricas! O inglês tem também problemas lexicais e ortográficos semelhantes (apesar de muito menos frequentes e da abundância de excelentes dicionários contrastivos), mas aposto que ninguém viu o manual de um automóvel britânico com o vocabulário e a ortografia do inglês americano, ou o manual de uma máquina fabricada em Espanha com vocabulário argentino ou venezuelano. Defender uma língua, qualquer língua, é também dar o seu a seu dono! E se posso aceitar que não somos os donos exclusivos da língua portuguesa, exijo também que a língua do meu país não seja a versão do português utilizada pelos outros povos, fruto das suas deambulações históricas e linguísticas, tão respeitáveis, evidentemente, como as nossas. Na mesma linha de raciocínio, também não deve ser o Brasil o dono exclusivo da língua (escrita agora, mas falada depois) em Portugal.

Se, por via do sinal errado dado pelo acordo ortográfico que nos querem fazer engolir, as empresas internacionais começarem a comprar no Brasil (...bem...é só fazer as contas...) as traduções para português-língua maravilhosa com 98% da grafia unificada e tudo, alguém duvida que iremos passar a comprar os nossos computadores com telas e mouses, os nossos carros com chapéus chineses ou as nossa torradeiras com plugues? E que, por força da repetição (uma forma bem conhecida para transformar uma língua, inicialmente franca, em língua corrente e oficial), a ‘caixa de velocidades’, a ‘ficha’ ou o ‘rato’ deixarão de existir no léxico português? Espanta-me a displicência com que é tida a tradução como um dos mais poderosos instrumentos de modificação de uma língua, tanto no sentido da sua desgraça (quando mal utilizada por tradutores de pacotilha), como no sentido do seu enriquecimento (quando utilizada pelos verdadeiros profissionais). Um exemplo: no português brasileiro corrente, mesmo em traduções publicadas de reputados documentos jurídicos, escreve-se frequentemente ‘corte’ e ‘corte suprema’, para designar as formas portuguesas-brasileiras ‘tribunal’ e ‘supremo/superior tribunal’, apesar de a única corte que o Brasil conheceu ter sido a de D. João VI!

E, sabendo tudo isto, por que iriam as tais empresas internacionais comprar as traduções no Brasil? Muito simplesmente, porque as podem comprar por lá a preços muitos mais baixos do que em Portugal (3). Há muito tempo – e com uma frequência que poderia deixar estarrecidos os mais distraídos – que é pedido aos tradutores portugueses que intervenham apenas como “revisores” de traduções feitas no Brasil, para as tornar utilizáveis em Portugal ou nos outros países com a norma linguística europeia. Com traduções lá compradas a feijões, em comparação com os preços correntes em Portugal, e com preços de revisão a cerca de 1/4 do preço da tradução...bem...é só fazer as contas! O acordo ortográfico dá uma ajuda...

E, nos concursos públicos portugueses em que é exigida a tradução portuguesa dos documentos das propostas apresentadas (que prevalece, nos termos legais, sobre a versão estrangeira dos mesmos...), irão ser aceites as traduções brasileiras, sem os Cs, os Ps e demais disparates do acordo, mas também, e fundamentalmente, com um léxico e gramática que nos são estranhos? Nos concursos de grande envergadura, em que o volume de tradução atinge facilmente os muitos milhares de páginas, a compra da sua tradução no Brasil traduzir-se-á na poupança de...bem...é só fazer as contas! Será esta a internacionalização da língua que nos prometem os defensores do acordo? Esperem os acordistas pelo resultado: à força de gritarem alegremente aos quatro ventos que “não somos os donos exclusivos da língua”, abrem-se as portas para que ela seja apenas o que outros muito bem quiserem que seja. Os ingleses também não são os donos exclusivos do inglês, mas também não pensam, porque não são cegos, em escrever como os americanos!

O acordo ortográfico irá funcionar como o mais fantástico instrumento para mandar para o desemprego muitos tradutores portugueses, ou para os transformar em peças secundárias no ciclo de tradução/produção de documentos. E, se muitos tradutores portugueses devem actualmente os seus rendimentos à legislação portuguesa e comunitária que obriga a fornecer aos consumidores documentação nas suas línguas nacionais, irão ser os tradutores brasileiros os verdadeiros beneficiários de tal legislação, para a qual o Brasil não foi, evidentemente, tido nem achado. Um verdadeiro subsídio português e comunitário concedido ao Brasil a fundo perdido e acompanhado de patéticas palavras de ordem de “a língua não é só nossa” e “viva o acordo e a internacionalização do português”. Afinal, o Ensaio sobre a Cegueira não é apenas um romance...

João Roque Dias | Tradutor (CT)
www.jrdias.com

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(1) Disponível em: http://www.jrdias.com/jrd-portugal-brasil.htm
(2) 1 de Setembro de 1911, data da entrada em vigor em Portugal da Reforma Ortográfica, sem acordo com o Brasil.
(3) Por exemplo, no estado do Rio de Janeiro, em 2008, o salário mínimo (piso salarial) para advogados e contadores (i.e., contabilistas) empregados – o escalão mais elevado definido pela Lei Ordinária Estadual n.º 5.168, de 20-12-2007 – é de R$ 1200,00 (mil e duzentos reais), ou seja, cerca de € 449,00. Como comparação, em Portugal, o Contrato Colectivo de Trabalho para o sector da restauração estipula uma remuneração mínima pecuniária de base de EUR 495,40 (o escalão mais baixo da tabela) para, por exemplo, ajudantes de despenseiro, contínuos e empregados de limpeza...

domingo, 15 de junho de 2008

Sr. Ministro da Cultura, por favor explique.


«O entendimento entre todos os falantes da língua portuguesa e a sua divulgação constituem o instrumento indispensável na resolução de problemas de coesão social, desenvolvimento, democracia e segurança. Só assim poderemos participar, e a nossa participação é essencial na criação de um estado mundial de ordem baseada no direito e de progresso. (...) Por isso Portugal ratificou o acordo ortográfico da língua portuguesa e criou um fundo para o aprofundamento da língua nas regiões do mundo que contam com comunidades de portugueses e nos países da CPLP.»

J. A. Pinto Ribeiro | Ministro da Cultura
[ citado por Marco Antinossi | Agência Lusa | S. Paulo | 10-06-2008 | 16:01:33 ]

Preocupam-me, enquanto professor, investigador e cidadão, a generalidade das declarações estranhas que o Ministro da Cultura proferiu no Dia de Portugal no Consulado Geral de Portugal em S. Paulo. São declarações vagas e confusas que tocam matérias de extrema importância linguística, política, científica e cultural, as quais não podem, entendo, ser abordadas com tal “vaguidez” e confusão por um alto responsável da governação, ainda para mais em dia e em contexto tão simbólicos.

O parágrafo em epígrafe preocupa-me particularmente, pelo que me aterei a ele exclusivamente. Do ponto de vista formal, está muito mal construído (aliás o conjunto das declarações apresenta deficiências inaceitáveis de redacção). Será problema do texto original do Ministro ou da transcrição do repórter? Na ausência de uma versão autorizada ou corrigida só posso especular.

Vejamos, na sequência “O entendimento entre todos os falantes da língua portuguesa e a sua divulgação” não se percebe qual é o antecedente da expressão anafórica “sua divulgação”. Explico-me: uma anáfora em Linguística é uma forma ou sequência de formas que remete para outra(s) anteriormente presente(s) no mesmo enunciado; assim, “sua divulgação” recebe significado pleno pela sua relação com uma expressão antecedente, a qual destaca ou especifica. Admitindo que “língua portuguesa” é o antecedente (e estou a conjecturar), o enunciado não deixa de ser bizarro. Aceitando, no entanto, esta conjectura como boa, pode-se tentar reformular a declaração do Ministro, no sentido de a clarificar, assim:

«A reforma ortográfica que Portugal aprovou é consequência da vontade de Portugal participar na criação de “um estado mundial de ordem baseada no direito e de progresso”, e a participação nessa criação decorre da “resolução de problemas como coesão social, desenvolvimento, democracia e segurança”, os quais serão resolvidos pelo “entendimento entre todos os falantes da língua portuguesa” e pela divulgação da mesma (?).»

Qualquer que tenha sido a intenção discursiva do Ministro da Cultura, ou qualquer que seja a interpretação do enunciado, estamos perante uma declaração inquietante — mesmo dando de barato que “coesão social, desenvolvimento, democracia e segurança” não são problemas e que o enunciado peca, como se vê, por problemas graves de formulação.

O Acordo Ortográfico de 1990 (AO) parece ser uma simples peça de um jogo de xadrez geo-político que nos escapa e que nunca tinha sido antes abertamente referido pelos nossos governantes. Teremos porventura de aguardar as “medidas importantes para a expansão do português no mundo” que, neste 10 de Junho cheio de novidades, o Ministro dos Negócios Estrangeiros anunciou que o Primeiro-Ministro iria anunciar. Talvez este puzzle “globo-estratégico” se torne mais claro por ocasião da cimeira da CPLP. Ou não.

Voltando ao AO. Sejam quais forem as medidas ou posições do governo português em matéria de política internacional, seja qual for a importância do relacionamento institucional e cultural estreito de Portugal com as nações de matriz linguística portuguesa, o interesse nacional sobreleva, em todos os planos e dimensões jurídicas e diplomáticas, de quaisquer compromissos ou agendas internacionais. Não pode deixar de assim ser, no quadro jurídico-constitucional que nos rege. Esse quadro jurídico-constitucional consagra (1) a qualidade do ensino e a integridade do uso da língua portuguesa como valores constitucionalmente garantidos, (2) a obrigação do Estado de prestar contas sobre a gestão dos assuntos públicos, e (3) os direitos dos cidadãos de serem informados sobre actos do Estado e de exigirem a cessação de actos ou situações lesivos do património da Nação, o qual património inclui necessariamente a língua, o seu uso e a sua ortografia.

Ora, o AO põe em causa valores como estabilidade cultural, ortográfica e pedagógica, e é elemento perturbador e disruptor da qualidade do ensino. O domínio escrito da língua portuguesa é a chave que abre a porta de todas as outras áreas do conhecimento, logo, o comprometimento da estabilidade do ensino do português porá em causa a qualidade do ensino de todas as outras matérias e disciplinas. Do ponto de vista da coesão social e da qualificação profissional e cultural dos cidadãos portugueses, o AO é objectivamente um atentado contra a educação, a cultura, a língua e ... a Pátria.

Do ponto de vista da qualidade da nossa democracia e da nossa cidadania, o processo através do qual esta reforma foi elaborada e está a ser imposta viola todos os preceitos morais e jurídicos que devem reger uma sociedade aberta moderna: não só NÃO HOUVE QUALQUER DISCUSSÃO PÚBLICA em fóruns idóneos, como FORAM IGNORADOS PARECERES IDÓNEOS MUITO CRÍTICOS que aconselhavam inequivocamente os decisores políticos a não aprovarem o AO, pela natureza das suas múltiplas e profundas deficiências.

O caso do parecer perdido ou ignorado da Associação Portuguesa de Linguística de 2005 é exemplar: pedido pelo Instituto Camões, na sequência da assinatura do 2.º Protocolo Modificativo do AO, só recentemente, em Abril de 2008, foi tornado público (por ocasião da audição parlamentar sobre o AO). E foi tornado público pelo emitente (a APL, cujo sentido cívico deve ser aplaudido) e não pelo requerente. Como foi isto possível?

(abordarei o teor deste parecer fundamental em ocasião mais oportuna)

Assim sendo, e posto isto, não consigo descortinar de que forma o monumento de inépcia e insensatez que é o AO poderá contribuir para a criação de um “estado mundial de ordem e de progresso”, ou para erradicar problemas relativos à “coesão social, desenvolvimento, democracia e segurança” nas diversas lusofonias afectadas pelo monstro acordortográfico, dado que o teor do mesmo compromete a coesão social e o desenvolvimento dos povos afectados, e a sua imposição compromete a plenitude da democracia nas comunidades mais afectadas. Isto para não referir o fosso ortográfico que se cavará entre as várias lusofonias pela ratificação e eventual aplicação do AO em apenas três países (nos termos do 2.º protocolo modificativo de 2004).

Por tudo isto, Sr. Ministro da Cultura — e partindo do princípio de que V. Ex.ª leu, ponderou e conhece bem o conteúdo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 — peço-lhe, respeitosa e encarecidamente, que explique.

Explique, por favor, o sentido profundo das suas declarações e explique o seu entendimento das consequências da aplicação da reforma ortográfica do Acordo de 1990, entendimento naturalmente baseado no conhecimento privilegiado que V. Ex.ª e o seu Ministério têm do assunto.

António Emiliano | Linguista e filólogo | Universidade Nova de Lisboa

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Factos inconvenientes

Factos relevantes — alguns dos quais estabelecidos nas últimas décadas pela investigação em linguística, neurolinguística, psicolinguística, grafemática e literacia — que os negociadores do Acordo Ortográfico ignoraram: factos inconvenientes para o acordismo de 1990-2008.


Facto:
oralidade e escrituralidade são dois media autónomos de actualização e realização de um sistema linguístico.


Facto: a escrita alfabética assenta numa relação entre unidades de escrita (grafemas — que não é o mesmo que ‘letras’) e unidades fonológicas (fonemas — que não é o mesmo que ‘sons’). Nenhuma ortografia de base alfabética foi, é ou será um sistema de transcrição fonética, pelo que é um erro crasso invocar-se um “princípio fonético” ou “de pronúncia” como base para uma reforma ortográfica.


Facto: as crianças pré-alfabetizadas (e os analfabetos em geral) têm uma reduzida consciência fonológica, que não vai além da discriminação de sílabas, e não lhes permite discriminar explícita e activamente os sons da fala (segmentos fonéticos). Assim, as crianças pequenas que se iniciam na aprendizagem da escrita adquirem as formas gráficas — a imagem gráfica das palavras — de forma holística, i.e. global, pelo que o sentido de “equações grafémicas” do tipo ‘b+a=bá’ lhes é totalmente inacessível.

O papel real de estratégias grafo-fonémicas na aprendizagem da escrita e na leitura, e a existência de um interface grafo-fonémico como parte integrante (e necessária) do “mecanismo mental” de processamento da língua escrita que qualquer leitor adulto/fluente possui são assunto de discussão, debate e controvérsia na comunidade científica. Já o eram, aliás, em 1990, mas os arquitectos do Acordo Ortográfico, reputados homens de letras, não eram especialistas de grafemática nem consta que tivessem especial preparação nessa área. Note-se que um eminente cientista português (Alexandre Castro Caldas, neurologista) demonstrou experimentalmente que a actividade cerebral de um sujeito alfabetizado é distinta da de um sujeito não alfabetizado: o primeiro tem zonas do cérebro activadas que no segundo estão “adormecidas”. A aquisição da literacia e o processamento da língua escrita afectam a estrutura interna do cérebro de forma marcante e específica: logo, pensar numa reforma ortográfica como uma coisa de somenos importância que afecta de leve as pessoas, ou à qual as pessoas se adaptam facilmente, é simplesmente ignorar o estado actual da ciência.


Facto: ler não é ser capaz de juntar ou concatenar letras e extrair delas sequências de sons. Ler não é soletrar e soletrar não é ler (ainda que a soletração possa desempenhar um papel subsidiário em determinadas fases da aquisição da escrita por crianças ou adultos analfabetos). A insistência na soletração como base do ensino da escrita e da leitura é perniciosa, pois condiciona e limita o reconhecimento holístico dos itens lexicais; a soletração é hoje reconhecidamente uma estratégia errada de ensino da língua escrita, pois desvia o esforço do aprendente do reconhecimento e produção global das palavras escritas para a análise do valor individual dos grafemas (propiciando assim o surgimento de toda a sorte de erros e hesitações ortográficas).


Facto: as ortografias não são entidades naturais, e não mudam naturalmente; mudam por força da vontade (consciente ou inconsciente) dos utilizadores. Quanto maior for o grau de codificação ortográfica e ortolinguística numa comunidade, maior será a rigidez do sistema e maior a resistência à mudança, maior será o impacto de qualquer mudança no sistema (por mínima que seja). Só em culturas/sociedades com baixo índice de literacia e de textualização e sem centros fortes de difusão de cultura são tolerados e considerados normais os usos escriturais particulares, divergentes e facultativos. A estabilidade ortográfica é apanágio de sociedades culturalmente complexas e avançadas, com forte apego à sua tradição e identidade culturais.


Facto: os sistemas de escrita não são concebidos para superar as dificuldades dos aprendentes (das crianças em idade escolar ou dos analfabetos em geral), mas destinam-se, ao contrário, a utilizadores adultos, maturos e fluentes. Não há ortografias intrinsecamente fáceis ou simples, do ponto de vista do aprendente. Todas são de difícil aquisição e exigem um salto cognitivo. A aprendizagem da ortografia é um processo de longa duração que dá ao aprendente acesso à cultura alargada da comunidade em que se inscreve. As dificuldades iniciais da aprendizagem são amplamente compensadas pelas vantagens comunicacionais do conhecimento e domínio de uma ortografia estável e codificada.


Facto: o português europeu e o português do Brasil são conjuntos de variedades linguísticas muito distintas que se encontram num processo multissecular de divergência. Não é possível fazer regredir a História no sentido da uniformização e unificação linguísticas. Para todos os efeitos, as enormes diferenças fonético-fonológicas, morfológicas, sintácticas e lexicais que existem actualmente entre o português europeu e o português do Brasil põem de facto em causa a existência de uma “língua portuguesa comum” a nível global, e obrigam do ponto de vista do estudo e descrição a uma abordagem linguística que trate o português europeu e o português do Brasil como línguas funcionais distintas. A unidade da língua portuguesa no mundo é, no melhor dos cenários, um conceito ideológico (perfeitamente legítimo, aliás), no pior, um mito, um fantasma.

Se a unidade linguística entre Portugal e Brasil é uma abstracção sem valor ou aplicação práticas, a unidade ortográfica essa é, nos termos que actualmente se discute, um puro disparate: nenhum benefício real poderá resultar dos custos trementos que acarretará vestir o português europeu e português do Brasil com uma roupagem gráfica semelhante, dado que a intercompreensão plena entre falantes dos dois diassistemas não existe e a clivagem é cada vez mais acentuada no plano da oralidade.

O termo ‘língua portuguesa’, aplicado de forma geral ao conjunto da lusofonia — que não é, de facto, uma comunidade linguística, mas uma comunidade política e cultural alicerçada numa história comum — é um termo geral que abrange um conjunto de variedades linguísticas mais ou menos próximas (e com graus diversos de inteligibilidade mútua). Exprime também a continuidade histórica entre o português europeu do século XVI e as variedades portuguesas contemporâneas dele descendentes bem como o parentesco linguístico e cultural que existe entre as diversas comunidades lusófonas espalhadas pelo mundo. Como é comummente usado, não é um termo operativo da análise linguística, dado que nas diversas comunidades que compõem a lusofonia (muitas das quais são multilingues) não existe um sistema linguístico único partilhado. Corresponde ao que alguns linguistas designam de ‘língua histórica’, por oposição a ‘língua funcional’ (a língua que cada um nós usa quotidiana e coloquialmente).

Aliás, é mais correcto e mais produtivo falar-se da pluralidade das ‘lusofonias’ (que é factual) do que da unidade da ‘lusofonia’ (que é um mito ou, no mínimo, uma abstracção).


Facto: o português é uma língua internacional (desde pelo menos o fim da Idade Média), sem problemas de difusão ou promoção independentemente da forma como se escreva. Na Europa é língua oficial da União Europeia e língua de trabalho do Parlamento Europeu, em África é língua oficial de seis países multilingues (incluindo a Guiné Equatorial) e da Organização de Unidade Africana, na América é língua oficial do Brasil, da Mercosul (Mercado Comum do Sul) e da Organização dos Estados Ibero-Americanos.

Não é sério pensar-se ou proclamar-se que uma reforma ortográfica possa contribuir para a maior ou menor projecção internacional da língua (seja lá o que isso for, e tenha a importância que se lhe possa atribuir), quando a difusão à escala mundial do português antedata de muito a existência de uma ortografia portuguesa.

Convém pensar um pouco no que significa e implica “projecção internacional” e “prestígio internacional” da língua no linguajar dos políticos (da política e da língua): é que se o problema se resume a contar e a exibir milhões de falantes (face aos milhões de outras línguas), então está-se, no limite, a pensar na língua em termos imperiais, o que, no tempo em que vivemos, não faz qualquer sentido. Note-se, a propósito dos milhões que falam português no mundo, que a maioria dos mais de duzentos milhões de pessoas que supostamente são hoje luso-falantes é composta por indivíduos analfabetos ou com literacia reduzida, e que muitos desses milhões não são falantes nativos de nenhuma variedade de português. De acordo com estimativas diversas o português é a quinta, sexta, sétima ou oitava língua mais falada do mundo, a uma distância grande do inglês e do mandarim.

O exame de perto da realidade linguística de países em vias de desenvolvimento nos quais se usa como língua nacional ou veicular uma língua europeia, mostra que, por detrás das estimativas monolíticas que são habitualmente divulgadas, se esconde uma realidade complexa e multi-facetada que inclui, por exemplo, diversos graus de proficiência linguística. Assim, se é certo que o português é uma língua internacional (há séculos), não é absolutamente certo que os milhões de falantes de que se fala falem todos a mesma coisa e com o mesmo grau de competência.


Facto: não há nenhum argumento de carácter linguístico, pedagógico e cultural que justifique a adopção de mais uma reforma ortográfica em Portugal, quanto mais de uma reforma tão profunda como a que agora se discute. A ortografia do português europeu sofreu desafortunadamente ao longo do século XX diversas e sucessivas alterações, e continua, apesar disso, a ter problemas: a presente reforma não só não resolve os problemas existentes como cria problemas novos.

É tempo de se aceitar a ortografia como está, goste-se ou não dela. É tempo de se aceitar a estabilidade ortográfica como valor superior. Objectivamente, é-me, enquanto linguista e estudioso, absolutamente indiferente que se tirem os P’s e os C’s “mudos”, para não falar dos H’s iniciais inorgânicos, que também se podia ter tirado. Não me é indiferente, no entanto, a ligeireza com que o sistema grafémico da língua portuguesa tem sido tratado em Portugal, não me é indiferente a ausência de argumentos grafémicos e linguísticos sólidos para se reformar novamente a nossa ortografia, e não me é indiferente a instabilidade e a insegurança ortográficas introduzidas pelo Acordo Ortográfico. Ou seja, o facto de se poder alterar alguma coisa ou de se achar que se deve alterar não justifica por si só que se o faça: a ortografia não existe no vazio, e não é propriedade de linguistas, filólogos, políticos, academias, universidades, governos ou partidos.


Facto: se é certo que a generalidade dos argumentos de suposta base linguística a favor de uma nova reforma é facilmente contraditada, donde resulta que o Acordo Ortográfico se apoia exclusivamente em argumentos de base política (e económica), mais certo é que, mesmo com argumentos técnicos bons ou até excelentes, os valores da estabilidade e da continuidade culturais são incontornáveis e deveriam pesar mais.