Numa terra cujo nome não vem agora ao caso, havia – sempre houve – uma mercearia. O proprietário do estabelecimento, o Sr. António, sempre danado para o negócio, oferecia aos seus clientes de tudo e do melhor que podia encontrar. E se havia algo que levava os fregueses a fazerem bicha à sua porta, era o chouriço. Aquele chouriço que vinha direitinho das matanças de outras terras, todas vizinhas da sua mercearia. Era chegar e andar, que os fregueses não o deixavam ficar nas prateleiras por muito tempo. Depois, acho que por causa de um "brasileiro" que por lá viveu, o Sr. António começou também a vender "linguiça brasileira". Coisa fina. Diferente, mas também muito apreciada. Afinal, o pessoal do outro lado do mundo aprendeu a fazê-la com as receitas antigas de gentes das terras do lado de cá, a que foram acrescentando os seus gostos. Diferente, sim, mas com bom tempero. O Sr. António dizia até que só não vendia petróleo de Angola em garrafas, porque não o deixavam...
Com o negócio a medrar, o nosso merceeiro resolveu diversificar a oferta e, em espaço bem arranjado, abriu um restaurante. A Florência, cabo-verdiana de nascimento, mas portuguesa no coração e nos papéis, tomou conta da cozinha. Foi mais uma roda-viva lá na terra. Nas mesas sempre cheias comia-se, lado a lado, bacalhau com todos a preceito, cachupa de chorar por mais, moamba de lamber os dedos, picanha assada no melhor ponto e, para as sobremesas, a genial cozinheira preparava um leite-creme de fazer corar os anjos, mas também coisas que desencantava noutras paragens, como as cocadas do Brasil.
Um dia, acho que por inícios dos anos 90 do século passado, sem que se saiba bem porquê, alguns cozinheiros de países onde se fala e escreve o português – de modo tão variado como a comida que por lá se come – sentaram-se à mesa com o firme propósito, asseguravam eles, de uniformizar, por meio de um miraculoso acordo, o aspecto das comidas desses países. Foi o desassossego! Para acalmar os que não acreditaram em tal propósito (há sempre os "saudosistas" da comida tradicional), os cozinheiros-acordistas juraram piamente que só o aspecto dos pratos iria ser uniformizado, que não, que o sabor continuaria a ser o de cada um, que sim, que cada um poderia continuar a cozinhar com os seus próprios ingredientes, que obviamente, os cozinheiros artísticos poderiam continuar a empratar como quisessem, que, evidentemente, a coisa era absolutamente necessária para inundar o mundo inteiro com a comida portuguesa (então as pizzas italianas e os hambúrgueres americanos não o tinham feito?) e para as criancinhas (de 6 ou 7 anos, esclareceram até os cozinheiros-acordistas) poderem escolher mais facilmente os pratos nas ementas ilustradas das cantinas escolares e que a coisa se impunha mesmo, porque nos refeitórios das Nações Unidas andava tudo louco (juravam eles...), porque os portugueses e os brasileiros insistiam em pedir pratos diferentes, apesar de confeccionados com ingredientes muito parecidos, que o novo aspecto, depois de uniformizado, iria abrir as portas a uma política gastronómica a sério, e que não, que ninguém queria mudar os pratos, mas apenas o seu aspecto exterior, e porque sim, que sim, e porque sim senhor. Os que não viam na coisa vantagem, ou até piada alguma, continuavam a querer comer bacalhau a parecer bacalhau, picanha com cara de picanha e moamba que, só pelo aspecto, só podia ser moamba! Diziam até que o aspecto da comida faz também parte do seu paladar e que os olhos também comem! E avançaram com pareceres de gente entendida em coisas de comer a dizer que a ideia era disparatada. Qual quê? Alguns adeptos da nova salgalhada gastronómica começaram a chamar-lhes até “fundamentalistas” e “salazaristas”! Os cozinheiros-acordistas da tal comida de fusão, toda nouvelle, perderam a cabeça e, um a um, com os passaportes bem levantados acima das suas cabeças, gritaram, numa patética e ridícula profissão-de-fé: nós não somos os donos da comida! Nós não podemos obrigar (como se alguém alguma vez tivesse obrigado alguém...) os brasileiros a comer chouriço português, os portugueses a comer linguiça brasileira, os timorenses a comer galinha à moçambicana e os cabo-verdianos a comer moamba angolana. Temos que fundir isto tudo em pratos de aspecto unificado, em que todos os de fora podem mexer na panela de cada um dos de dentro. E até arranjaram uma regra muito simples (números sempre são números, não é?): quem tiver mais pessoas à mesa fica com o direito de mandar na cozinha de todos os outros! Quando passaram tudo a escrito, sim, que estes cozinheiros-acordistas gostam de escrever, sob o título “Acordo Gastronómico da Comida Portuguesa" a regra ficou ainda mais clara: quando a comida brasileira era diferente da portuguesa, os pratos poderiam, facultativamente, ser confeccionados à moda brasileira ou à moda portuguesa; mas quando a comida portuguesa era diferente da brasileira, os pratos teriam que ser apresentados à moda brasileira. Sobre a comida dos outros países, o acordo era mudo, cego e paralítico: que comessem a comida feita nas cozinhas brasileiras e portuguesas, para, depois, quem sabe, poderem olhar orgulhosos para a expansão de uma comida que, não sendo só deles, também podem chamar deles. Na regra dos milhões, os que são mais podem mexer nos tachos de todos. As virtualidades desta mixórdia repelente à vista e sensaborona na boca não são claras para ninguém, mas têm uma vantagem: como o Brasil quer um lugar de cozinheiro nos refeitórios das Nações Unidas, sempre se pode candidatar com um livro de receitas de “comida lusófona unificada”. Os outros países do mundo, que sempre gostaram de provar os sabores de todos nós, hão-de admitir o candidato para confeccionar a nova comida “fundida”, defendem os cozinheiros-acordistas! Sem esquecer, claro, a outra vantagem, essa mais domesticamente lusófona: acaba-se com as casas de pasto e os talhos que os portugueses mantêm cordatamente nos outros países que comem português e substituem-se por botequins e açougues brasileiros. Sim, dizem os cozinheiros do acordo, que isto não é só vosso e "eles" são muitos milhões a mais...
Na mercearia do Sr. António (o pobre anda até a pensar mudar a tabuleta da loja para Antônio, para não perder o trem da grande expansão do negócio que lhe prometeram...) vende-se agora uma “chouguiça” desenxabida, talvez por causa dos temperos tropicais, como manda a lei dos cozinheiros-acordistas! A cozinheira Florência está a dar em doida: tem que cozer a chanfana em leite de coco e servi-la com tucupi, a moamba tem que a fazer com óleo de oliva, os panados são agora preparados com farinha de rosca, a cachupa deve parecer-se com o cozido à portuguesa-moda-do-Recife e as sobremesas têm que levar sempre um toque de leite moça. O António e a Florência não perceberam ainda é como é que esta nova comida travestida e de fusão lhes vai aumentar o negócio a nível internacional e andam seriamente preocupados com os quase 100 000 comensais portugueses, outrora fiéis da boa mesa portuguesa, brasileira, cabo-verdiana, angolana, moçambicana e macaense, que já declararam que não irão pôr mais os pés no novo restaurante! Comidas daquelas? Que as comam eles!
João Roque Dias | Tradutor (CT)
www.jrdias.com
--//--
A Petição Contra o Acordo Ortográfico continua aberta e disponível para assinatura. Conta hoje com 88 912 assinaturas.
Assine-a em www.ipetitions.com/petition/manifestolinguaportuguesa.
Enquanto há Língua, há esperança.
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sábado, 26 de julho de 2008
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Afinal, ‘Ensaio sobre a Cegueira’ não é apenas um romance
Num pequeno texto (1) escrito 10 anos depois da assinatura do acordo ortográfico (Portuguese translation: What clients need to know), e que se tornou um clássico entre a comunidade de tradutores portugueses e brasileiros em todo o mundo, Lyris Wiedemann, professora da Universidade de Stanford e tradutora independente afirmou:
«...it is virtually impossible for a native speaker of one variety of Portuguese (European or Brazilian) to do a good translation into the other. Although there are unfortunately people who may feel, and announce themselves, as capable of translating or editing for both varieties, their work usually does not pass the simplest scrutiny of a native speaker».
O que terá levado uma tradutora com um mestrado em Didáctica da Linguística e um doutoramento em Linguística Aplicada a fazer tal afirmação? Muito simplesmente, o conhecimento prático do modo como se processa a comunicação pela via escrita – necessariamente através da utilização da ortografia. Ora, na língua portuguesa – em que existem duas normas ortográficas bem definidas e estabilizadas, quase centenárias (2), a norma euro-afro-asiático-oceânica e a norma brasileira – a tradução para qualquer uma destas normas utiliza necessariamente a língua e a linguagem próprias dos respectivos falantes (e, evidentemente, escreventes), através do léxico, da gramática, da morfologia, da sintaxe, da prosódia e de todos os restantes componentes da língua. Sonhar sequer que, com a implementação do acordo ortográfico (com minúsculas, devido ao número e calibre dos erros e disparates nele contidos), as duas normas linguísticas passariam a ter como que um salvo-conduto para circularem livremente em ambos os espaços linguísticos, constitui uma cegueira indesculpável.
As duas normas estabilizadas da língua portuguesa não chegaram até 1990 por nenhum passe de mágica ou milagre. Como não podia deixar de ser, aí chegaram por obra dos seus falantes e pelas influências recebidas de outras línguas e culturas. No caso do Brasil, por exemplo, ao contrário do português europeu, a influência do francês é insignificante e a marca do inglês americano na língua aí falada e escrita é omnipresente, sobretudo, e como não podia deixar de ser, na norma “culta” da língua.
Entre o português utilizado (pela fala e pela escrita) em Portugal e o português utilizado (pela fala e pela escrita) no Brasil, as diferenças mais insignificantes são as ortográficas: nunca as consoantes mudas – é bom não esquecer que o acordo foi fabricado para acabar com esta diferença ortográfica entre Portugal e o Brasil – impossibilitaram a compreensão de qualquer texto. As maiores diferenças – as que impedem frequentemente uma compreensão natural e escorreita da língua escrita pelos falantes da outra norma – residem no modo como são utilizados o léxico e a gramática. São estas diferenças que inviabilizam em termos práticos a utilização em Portugal das traduções feitas por brasileiros ou a utilização no Brasil das traduções feitas por portugueses. Refiro-me aqui, exclusivamente, às traduções de textos especializados (os linguistas chamam-lhes textos pragmáticos) necessários à vida dos cidadãos, das empresas e das organizações públicas, como a tradução de literatura técnica diversa ou de outras áreas, como o direito, a economia, a medicina, etc. Esta inviabilidade é pacificamente aceite, há já muitos anos, pela indústria das línguas: tradução para Portugal e os países africanos-asiáticos-oceânicos de língua portuguesa é para ser feita por tradutores portugueses ou dos respectivos países e tradução para o Brasil é necessariamente para ser feita por tradutores brasileiros. Subverter este princípio básico é abrir a porta ao disparate grosso e abundam os exemplos quando tal aconteceu. Por uma estranha extensão deste conceito, já cristalizado em todo o mundo, os clientes de tradução pedem-nos também traduções em português cabo-verdiano, angolano, moçambicano, timorense, etc. Os mais espertos (bem...é só fazer as contas...) pedem-nos até traduções redigidas num português “universal” ou “internacional”, para permitir a sua utilização directa, i.e., sem qualquer adaptação, do Minho a Timor com passagem pelo Brasil! Os acordistas, defensores do “português universal e expandido”, que o escrevam! Não irão faltar trapaceiros que lhes comprem o serviço, desde que seja a pataco! Faltarão, isso sim, é pessoas que o consigam ler com proveito!
Referindo-me apenas à área da minha especialização em tradução, a engenharia mecânica, não me passa sequer pela cabeça traduzir textos desta área para o Brasil: as máquinas que eu conheço não têm arruelas, munhões ou caçambas, nem são lubrificadas com graxa, os meus automóveis não têm caixas de câmbio, cilindros-mestre ou chapéus chineses, nas minhas estradas não existem greides, acostamentos ou canteiros centrais e o meu trabalho é feito em computadores que não têm mouses. Quanto à gramática do português europeu, os meus colegas brasileiros não a conhecem e eu também não conheço a deles. Conclusão nua e crua: o nosso trabalho (o meu ou o deles) «usually does not pass the simplest scrutiny of a native speaker». E para textos cuja compreensão imediata e natural pelos leitores a que se destinam é uma absoluta necessidade, não é a ortografia (unificada ou não) que assegura tal compreensão: alguém quer ler o manual da geladeira (frigorífico) comprado (assumo o erro na concordância) em Portugal numa língua que lhe é estranha, ou ter que folhear um dicionário contrastivo (existe algum verdadeiramente sério?) a cada 3 ou 4 palavras, para poder pôr o coiso (ou será a coisa?) a funcionar? O acordo e os seus defensores querem e acham até que é possível. Cegueira completa!
Tudo isto ultrapassa, e muito, as estafadas anedotas sobre o nosso desacordo linguístico com o Brasil, como a péssima reputação das nossas raparigas em terras brasileiras, só por o serem, a recusa, estranha para nós, das mulheres brasileiras usarem cuecas, o seu extraordinário hábito de dormirem de camisola vestida (no Brasil, estranho é o Cristiano Ronaldo jogar com camisola, mesmo que seja das Quinas), a lavagem da louça ser feita na pia ou os plugues ligados às tomadas eléctricas! O inglês tem também problemas lexicais e ortográficos semelhantes (apesar de muito menos frequentes e da abundância de excelentes dicionários contrastivos), mas aposto que ninguém viu o manual de um automóvel britânico com o vocabulário e a ortografia do inglês americano, ou o manual de uma máquina fabricada em Espanha com vocabulário argentino ou venezuelano. Defender uma língua, qualquer língua, é também dar o seu a seu dono! E se posso aceitar que não somos os donos exclusivos da língua portuguesa, exijo também que a língua do meu país não seja a versão do português utilizada pelos outros povos, fruto das suas deambulações históricas e linguísticas, tão respeitáveis, evidentemente, como as nossas. Na mesma linha de raciocínio, também não deve ser o Brasil o dono exclusivo da língua (escrita agora, mas falada depois) em Portugal.
Se, por via do sinal errado dado pelo acordo ortográfico que nos querem fazer engolir, as empresas internacionais começarem a comprar no Brasil (...bem...é só fazer as contas...) as traduções para português-língua maravilhosa com 98% da grafia unificada e tudo, alguém duvida que iremos passar a comprar os nossos computadores com telas e mouses, os nossos carros com chapéus chineses ou as nossa torradeiras com plugues? E que, por força da repetição (uma forma bem conhecida para transformar uma língua, inicialmente franca, em língua corrente e oficial), a ‘caixa de velocidades’, a ‘ficha’ ou o ‘rato’ deixarão de existir no léxico português? Espanta-me a displicência com que é tida a tradução como um dos mais poderosos instrumentos de modificação de uma língua, tanto no sentido da sua desgraça (quando mal utilizada por tradutores de pacotilha), como no sentido do seu enriquecimento (quando utilizada pelos verdadeiros profissionais). Um exemplo: no português brasileiro corrente, mesmo em traduções publicadas de reputados documentos jurídicos, escreve-se frequentemente ‘corte’ e ‘corte suprema’, para designar as formas portuguesas-brasileiras ‘tribunal’ e ‘supremo/superior tribunal’, apesar de a única corte que o Brasil conheceu ter sido a de D. João VI!
E, sabendo tudo isto, por que iriam as tais empresas internacionais comprar as traduções no Brasil? Muito simplesmente, porque as podem comprar por lá a preços muitos mais baixos do que em Portugal (3). Há muito tempo – e com uma frequência que poderia deixar estarrecidos os mais distraídos – que é pedido aos tradutores portugueses que intervenham apenas como “revisores” de traduções feitas no Brasil, para as tornar utilizáveis em Portugal ou nos outros países com a norma linguística europeia. Com traduções lá compradas a feijões, em comparação com os preços correntes em Portugal, e com preços de revisão a cerca de 1/4 do preço da tradução...bem...é só fazer as contas! O acordo ortográfico dá uma ajuda...
E, nos concursos públicos portugueses em que é exigida a tradução portuguesa dos documentos das propostas apresentadas (que prevalece, nos termos legais, sobre a versão estrangeira dos mesmos...), irão ser aceites as traduções brasileiras, sem os Cs, os Ps e demais disparates do acordo, mas também, e fundamentalmente, com um léxico e gramática que nos são estranhos? Nos concursos de grande envergadura, em que o volume de tradução atinge facilmente os muitos milhares de páginas, a compra da sua tradução no Brasil traduzir-se-á na poupança de...bem...é só fazer as contas! Será esta a internacionalização da língua que nos prometem os defensores do acordo? Esperem os acordistas pelo resultado: à força de gritarem alegremente aos quatro ventos que “não somos os donos exclusivos da língua”, abrem-se as portas para que ela seja apenas o que outros muito bem quiserem que seja. Os ingleses também não são os donos exclusivos do inglês, mas também não pensam, porque não são cegos, em escrever como os americanos!
O acordo ortográfico irá funcionar como o mais fantástico instrumento para mandar para o desemprego muitos tradutores portugueses, ou para os transformar em peças secundárias no ciclo de tradução/produção de documentos. E, se muitos tradutores portugueses devem actualmente os seus rendimentos à legislação portuguesa e comunitária que obriga a fornecer aos consumidores documentação nas suas línguas nacionais, irão ser os tradutores brasileiros os verdadeiros beneficiários de tal legislação, para a qual o Brasil não foi, evidentemente, tido nem achado. Um verdadeiro subsídio português e comunitário concedido ao Brasil a fundo perdido e acompanhado de patéticas palavras de ordem de “a língua não é só nossa” e “viva o acordo e a internacionalização do português”. Afinal, o Ensaio sobre a Cegueira não é apenas um romance...
João Roque Dias | Tradutor (CT)
www.jrdias.com
____________________
(1) Disponível em: http://www.jrdias.com/jrd-portugal-brasil.htm
(2) 1 de Setembro de 1911, data da entrada em vigor em Portugal da Reforma Ortográfica, sem acordo com o Brasil.
(3) Por exemplo, no estado do Rio de Janeiro, em 2008, o salário mínimo (piso salarial) para advogados e contadores (i.e., contabilistas) empregados – o escalão mais elevado definido pela Lei Ordinária Estadual n.º 5.168, de 20-12-2007 – é de R$ 1200,00 (mil e duzentos reais), ou seja, cerca de € 449,00. Como comparação, em Portugal, o Contrato Colectivo de Trabalho para o sector da restauração estipula uma remuneração mínima pecuniária de base de EUR 495,40 (o escalão mais baixo da tabela) para, por exemplo, ajudantes de despenseiro, contínuos e empregados de limpeza...
«...it is virtually impossible for a native speaker of one variety of Portuguese (European or Brazilian) to do a good translation into the other. Although there are unfortunately people who may feel, and announce themselves, as capable of translating or editing for both varieties, their work usually does not pass the simplest scrutiny of a native speaker».
O que terá levado uma tradutora com um mestrado em Didáctica da Linguística e um doutoramento em Linguística Aplicada a fazer tal afirmação? Muito simplesmente, o conhecimento prático do modo como se processa a comunicação pela via escrita – necessariamente através da utilização da ortografia. Ora, na língua portuguesa – em que existem duas normas ortográficas bem definidas e estabilizadas, quase centenárias (2), a norma euro-afro-asiático-oceânica e a norma brasileira – a tradução para qualquer uma destas normas utiliza necessariamente a língua e a linguagem próprias dos respectivos falantes (e, evidentemente, escreventes), através do léxico, da gramática, da morfologia, da sintaxe, da prosódia e de todos os restantes componentes da língua. Sonhar sequer que, com a implementação do acordo ortográfico (com minúsculas, devido ao número e calibre dos erros e disparates nele contidos), as duas normas linguísticas passariam a ter como que um salvo-conduto para circularem livremente em ambos os espaços linguísticos, constitui uma cegueira indesculpável.
As duas normas estabilizadas da língua portuguesa não chegaram até 1990 por nenhum passe de mágica ou milagre. Como não podia deixar de ser, aí chegaram por obra dos seus falantes e pelas influências recebidas de outras línguas e culturas. No caso do Brasil, por exemplo, ao contrário do português europeu, a influência do francês é insignificante e a marca do inglês americano na língua aí falada e escrita é omnipresente, sobretudo, e como não podia deixar de ser, na norma “culta” da língua.
Entre o português utilizado (pela fala e pela escrita) em Portugal e o português utilizado (pela fala e pela escrita) no Brasil, as diferenças mais insignificantes são as ortográficas: nunca as consoantes mudas – é bom não esquecer que o acordo foi fabricado para acabar com esta diferença ortográfica entre Portugal e o Brasil – impossibilitaram a compreensão de qualquer texto. As maiores diferenças – as que impedem frequentemente uma compreensão natural e escorreita da língua escrita pelos falantes da outra norma – residem no modo como são utilizados o léxico e a gramática. São estas diferenças que inviabilizam em termos práticos a utilização em Portugal das traduções feitas por brasileiros ou a utilização no Brasil das traduções feitas por portugueses. Refiro-me aqui, exclusivamente, às traduções de textos especializados (os linguistas chamam-lhes textos pragmáticos) necessários à vida dos cidadãos, das empresas e das organizações públicas, como a tradução de literatura técnica diversa ou de outras áreas, como o direito, a economia, a medicina, etc. Esta inviabilidade é pacificamente aceite, há já muitos anos, pela indústria das línguas: tradução para Portugal e os países africanos-asiáticos-oceânicos de língua portuguesa é para ser feita por tradutores portugueses ou dos respectivos países e tradução para o Brasil é necessariamente para ser feita por tradutores brasileiros. Subverter este princípio básico é abrir a porta ao disparate grosso e abundam os exemplos quando tal aconteceu. Por uma estranha extensão deste conceito, já cristalizado em todo o mundo, os clientes de tradução pedem-nos também traduções em português cabo-verdiano, angolano, moçambicano, timorense, etc. Os mais espertos (bem...é só fazer as contas...) pedem-nos até traduções redigidas num português “universal” ou “internacional”, para permitir a sua utilização directa, i.e., sem qualquer adaptação, do Minho a Timor com passagem pelo Brasil! Os acordistas, defensores do “português universal e expandido”, que o escrevam! Não irão faltar trapaceiros que lhes comprem o serviço, desde que seja a pataco! Faltarão, isso sim, é pessoas que o consigam ler com proveito!
Referindo-me apenas à área da minha especialização em tradução, a engenharia mecânica, não me passa sequer pela cabeça traduzir textos desta área para o Brasil: as máquinas que eu conheço não têm arruelas, munhões ou caçambas, nem são lubrificadas com graxa, os meus automóveis não têm caixas de câmbio, cilindros-mestre ou chapéus chineses, nas minhas estradas não existem greides, acostamentos ou canteiros centrais e o meu trabalho é feito em computadores que não têm mouses. Quanto à gramática do português europeu, os meus colegas brasileiros não a conhecem e eu também não conheço a deles. Conclusão nua e crua: o nosso trabalho (o meu ou o deles) «usually does not pass the simplest scrutiny of a native speaker». E para textos cuja compreensão imediata e natural pelos leitores a que se destinam é uma absoluta necessidade, não é a ortografia (unificada ou não) que assegura tal compreensão: alguém quer ler o manual da geladeira (frigorífico) comprado (assumo o erro na concordância) em Portugal numa língua que lhe é estranha, ou ter que folhear um dicionário contrastivo (existe algum verdadeiramente sério?) a cada 3 ou 4 palavras, para poder pôr o coiso (ou será a coisa?) a funcionar? O acordo e os seus defensores querem e acham até que é possível. Cegueira completa!
Tudo isto ultrapassa, e muito, as estafadas anedotas sobre o nosso desacordo linguístico com o Brasil, como a péssima reputação das nossas raparigas em terras brasileiras, só por o serem, a recusa, estranha para nós, das mulheres brasileiras usarem cuecas, o seu extraordinário hábito de dormirem de camisola vestida (no Brasil, estranho é o Cristiano Ronaldo jogar com camisola, mesmo que seja das Quinas), a lavagem da louça ser feita na pia ou os plugues ligados às tomadas eléctricas! O inglês tem também problemas lexicais e ortográficos semelhantes (apesar de muito menos frequentes e da abundância de excelentes dicionários contrastivos), mas aposto que ninguém viu o manual de um automóvel britânico com o vocabulário e a ortografia do inglês americano, ou o manual de uma máquina fabricada em Espanha com vocabulário argentino ou venezuelano. Defender uma língua, qualquer língua, é também dar o seu a seu dono! E se posso aceitar que não somos os donos exclusivos da língua portuguesa, exijo também que a língua do meu país não seja a versão do português utilizada pelos outros povos, fruto das suas deambulações históricas e linguísticas, tão respeitáveis, evidentemente, como as nossas. Na mesma linha de raciocínio, também não deve ser o Brasil o dono exclusivo da língua (escrita agora, mas falada depois) em Portugal.
Se, por via do sinal errado dado pelo acordo ortográfico que nos querem fazer engolir, as empresas internacionais começarem a comprar no Brasil (...bem...é só fazer as contas...) as traduções para português-língua maravilhosa com 98% da grafia unificada e tudo, alguém duvida que iremos passar a comprar os nossos computadores com telas e mouses, os nossos carros com chapéus chineses ou as nossa torradeiras com plugues? E que, por força da repetição (uma forma bem conhecida para transformar uma língua, inicialmente franca, em língua corrente e oficial), a ‘caixa de velocidades’, a ‘ficha’ ou o ‘rato’ deixarão de existir no léxico português? Espanta-me a displicência com que é tida a tradução como um dos mais poderosos instrumentos de modificação de uma língua, tanto no sentido da sua desgraça (quando mal utilizada por tradutores de pacotilha), como no sentido do seu enriquecimento (quando utilizada pelos verdadeiros profissionais). Um exemplo: no português brasileiro corrente, mesmo em traduções publicadas de reputados documentos jurídicos, escreve-se frequentemente ‘corte’ e ‘corte suprema’, para designar as formas portuguesas-brasileiras ‘tribunal’ e ‘supremo/superior tribunal’, apesar de a única corte que o Brasil conheceu ter sido a de D. João VI!
E, sabendo tudo isto, por que iriam as tais empresas internacionais comprar as traduções no Brasil? Muito simplesmente, porque as podem comprar por lá a preços muitos mais baixos do que em Portugal (3). Há muito tempo – e com uma frequência que poderia deixar estarrecidos os mais distraídos – que é pedido aos tradutores portugueses que intervenham apenas como “revisores” de traduções feitas no Brasil, para as tornar utilizáveis em Portugal ou nos outros países com a norma linguística europeia. Com traduções lá compradas a feijões, em comparação com os preços correntes em Portugal, e com preços de revisão a cerca de 1/4 do preço da tradução...bem...é só fazer as contas! O acordo ortográfico dá uma ajuda...
E, nos concursos públicos portugueses em que é exigida a tradução portuguesa dos documentos das propostas apresentadas (que prevalece, nos termos legais, sobre a versão estrangeira dos mesmos...), irão ser aceites as traduções brasileiras, sem os Cs, os Ps e demais disparates do acordo, mas também, e fundamentalmente, com um léxico e gramática que nos são estranhos? Nos concursos de grande envergadura, em que o volume de tradução atinge facilmente os muitos milhares de páginas, a compra da sua tradução no Brasil traduzir-se-á na poupança de...bem...é só fazer as contas! Será esta a internacionalização da língua que nos prometem os defensores do acordo? Esperem os acordistas pelo resultado: à força de gritarem alegremente aos quatro ventos que “não somos os donos exclusivos da língua”, abrem-se as portas para que ela seja apenas o que outros muito bem quiserem que seja. Os ingleses também não são os donos exclusivos do inglês, mas também não pensam, porque não são cegos, em escrever como os americanos!
O acordo ortográfico irá funcionar como o mais fantástico instrumento para mandar para o desemprego muitos tradutores portugueses, ou para os transformar em peças secundárias no ciclo de tradução/produção de documentos. E, se muitos tradutores portugueses devem actualmente os seus rendimentos à legislação portuguesa e comunitária que obriga a fornecer aos consumidores documentação nas suas línguas nacionais, irão ser os tradutores brasileiros os verdadeiros beneficiários de tal legislação, para a qual o Brasil não foi, evidentemente, tido nem achado. Um verdadeiro subsídio português e comunitário concedido ao Brasil a fundo perdido e acompanhado de patéticas palavras de ordem de “a língua não é só nossa” e “viva o acordo e a internacionalização do português”. Afinal, o Ensaio sobre a Cegueira não é apenas um romance...
João Roque Dias | Tradutor (CT)
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(1) Disponível em: http://www.jrdias.com/jrd-portugal-brasil.htm
(2) 1 de Setembro de 1911, data da entrada em vigor em Portugal da Reforma Ortográfica, sem acordo com o Brasil.
(3) Por exemplo, no estado do Rio de Janeiro, em 2008, o salário mínimo (piso salarial) para advogados e contadores (i.e., contabilistas) empregados – o escalão mais elevado definido pela Lei Ordinária Estadual n.º 5.168, de 20-12-2007 – é de R$ 1200,00 (mil e duzentos reais), ou seja, cerca de € 449,00. Como comparação, em Portugal, o Contrato Colectivo de Trabalho para o sector da restauração estipula uma remuneração mínima pecuniária de base de EUR 495,40 (o escalão mais baixo da tabela) para, por exemplo, ajudantes de despenseiro, contínuos e empregados de limpeza...
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