quarta-feira, 11 de Março de 2009

Crónica de Ricardo Freire no jornal Estadão de S. Paulo

"(...)um idioma que divirja justamente na frase “Eu te amo” não pode ter nenhuma esperança de unificação, falada, escrita ou o que seja.(...)"



Crónica de Ricardo Freire no jornal Estado de S. Paulo
(ligação não disponível, texto em linha no blogue do autor)


Acabo de devorar um livro que é a melhor e mais embasada crítica já escrita ao acordo ortográfico do português. Trata-se de “The Mother Tongue: English and how it got that way” (algo como “A Língua Materna: como o inglês ficou desse jeito), de Bill Bryson, o mesmo do genial “Uma breve história de quase tudo”.

Está bem, está bem: o livro não é exatamente sobre o acordo ortográfico do português. Não foi publicado agora, mas em 1990. E Bill Bryson não deve saber xongas sobre as diferenças entre as variantes do português dos dois lados do Atlântico – nem ao menos que o nosso “Eu te amo”, em solo luso, se diz “Amo-te”.

(Parênteses: na minha modesta opinião, um idioma que divirja justamente na frase “Eu te amo” não pode ter nenhuma esperança de unificação, falada, escrita ou o que seja.)

O que “The Mother Tongue” traz é uma fórmula vencedora de auto-ajuda para toda língua que queira conquistar amigos e influenciar pessoas. E a fórmula que fez do inglês o idioma mais influente do planeta, afirma Bryson, é justamente a sua falta de regulamentação.

Olhe que interessante: o período em que o inglês mais evoluiu foi durante os 300 anos – entre 1066 e 1399 – em que reis normandos mandaram na Inglaterra. Enquanto o francês era a língua oficial da Corte, a patuléia pôde fazer da língua inglesa o que bem lhe aprouvesse. Foi quando os gêneros acabaram abolidos, as conjugações verbais foram simplificadas, e os plurais saxões terminados em “n” e “r” foram naturalmente uniformizados em “s”.

Ao retomar o status de idioma oficial, o inglês moderno estava mais enxuto, mas continuava suficientemente vira-lata para incorporar tudo o que viria a passar pelo seu caminho: o vocabulário deixado pela corte francofônica, os neologismos fabricados pelos elizabetanos e vitorianos, os termos importados das colônias, as estruturas inventadas pelos americanos.

Até hoje ingleses e americanos não têm uma ortografia comum – nem querem ter. Os ingleses seguem o dicionário Oxford, os americanos seguem o Webster – e os dicionários seguem os britânicos e os americanos, registrando as grafias que ocorrem e vingam na vida real.

A ortografia inglesa não faz sentido? À primeira vista, não. Mas se a escrita fosse fonética, como diferenciar “eight” de “ate”, “see” de “sea”?

Eu não perdi as esperanças. Se até o confisco do Plano Bresser está reaparecendo, eu tenho certeza de que ainda vou ter os meus tremas e acentos de volta.

Ricardo Freire, Fevereiro 2009

2 comentários:

Leite de Pedra disse...

Como português a viver no Brasil, Bravo! Cada um que escreva como entender, Que uns usem o "planejamento", que outros usem o "planeamento", que uns digam "amo-te" e outros "eu te amo". A riqueza está na diversidade.

Anónimo disse...

Como brasileiro e falante nativo da Língua Portuguesa, eu parabenizo todos os portugueses e brasileiros que apoiam o Movimento em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo.

Ao produzirem uma lista com cerca de 200 mil assinaturas contra o Acordo, considerando que Portugal é um país pequeno com população também pequena, se comparado ao Brasil, os portugueses deram aos brasileiros uma grande lição de cidadania, cultura, amor à Língua Portuguesa e até de patriotismo cultural, afinal, foi um português que escreveu "A Minha Pátria é a língua portuguesa".

Certamente, os grandes escritores brasileiros e portugueses apoiariam o Movimento em Defesa da Língua Portuguesa e contra o Acordo Ortográfico.