quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

Vasco Graça Moura - NÃO QUEREMOS, PURA E SIMPLESMENTE

A audição dos responsáveis pela petição "Em Defesa da Língua Portuguesa", de que sou o primeiro subscritor, teve lugar na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da Assembleia da República no dia 25 de Setembro, em sessão presidida pelo deputado-relator Feliciano Barreiras Duarte.

Num texto que publicou no blogue oficial da petição (http/emdefesadalinguaportuguesa.blogspot.com), Maria Alzira Seixo dá conta do modo como aquela audição decorreu. E nunca será demais encarecer a demolição total do Acordo Ortográfico a que, tanto Jorge Morais Barbosa como António Emiliano, os dois reputados professores de Linguística que com ela e comigo se deslocaram a São Bento, procederam uma vez mais na sessão referida.

Neste momento, o número de signatários da petição de todos os sectores ideológicos, políticos, profissionais e sociais já ultrapassa os 95 mil, o que, apesar do inevitável abrandamento de ritmo ocorrido em período de férias grandes, é extraordinariamente expressivo. É de esperar que as assinaturas continuem a acumular-se e parece evidente que o processo não pode parar até se chegar a um resultado satisfatório.

Por um lado, essas muitas dezenas de milhares de pessoas depositaram a sua expectativa e a sua confiança no bom andamento e no êxito na petição, bem como no empenhamento dos seus promotores. Por outro, não pode ainda considerar-se esgotado o conjunto de possibilidades de ataque ao Acordo Ortográfico, nem no plano analítico e argumentativo, nem no plano das acções a empreender.

Neste momento, o que parece mais adequado é aguardar pela feitura do relatório do deputado Feliciano Barreiras Duarte e esperar que esse documento seja presente ao plenário da Assembleia da República, nos termos legais. Se tudo correr como os seus promotores esperam, o objectivo da petição pode ser conseguido, levando à suspensão do Acordo Ortográfico para fins da sua revisão.

O que neste momento está em apreço não tem nada que ver com o segundo protocolo modificativo que o Presidente da República ratificou há dois meses. Esse protocolo limita-se a estabelecer que a ratificação por três de sete países obriga os restantes quatro. Independentemente do absurdo jurídico e da imoralidade da coisa, temos que continua a não haver notícias de que Angola, Moçambique e a Guiné-Bissau se conformem com tal princípio e muito menos com o Acordo Ortográfico. Decorridos 18 anos, não o ratificaram porque não o querem...

O que está agora em apreço é o próprio conteúdo do Acordo Ortográfico, ratificado em 1991. É a necessidade imperiosa de se proceder à revisão das enormidades e vícios de um documento que nunca se aplicou e uns quantos irresponsáveis continuam a defender. Ora nada impede que o Parlamento se debruce sobre esses problemas, já que, da parte do Governo, não há sinais de a gravidade e o alcance destas matérias terem, sequer, sido compreendidos.

Entretanto, tornou-se patente urbi et orbi que o nosso Presidente da República, bem como o do Brasil e outras individualidades puderam perfeitamente exprimir-se em português nas Nações Unidas, sem qualquer necessidade de Acordo Ortográfico. Isso tornou-se possível porque houve quem pagasse os custos da interpretação, o que foi sempre o único problema...

António Emiliano apresentou provas documentais (manual de estilo da Wikipedia e lista dos Locale ID and Language Groups da Microsoft) de que são consideradas inúmeras variantes ortográficas nacionais em línguas como o inglês, o espanhol ou árabe, o que não lhes impede a projecção mundial. No caso português, a lista da Microsoft apenas considera o português do Brasil (Portuguese-Brazilian) e o português padrão (Portuguese-Standard), isto é, apenas duas variantes contra 15 para o inglês e 20 para o espanhol.

Em Junho, o ministro da Cultura afirmou no Brasil que se o acordo é uma coisa boa, "então que seja o mais depressa possível". Mas acrescentou: "Se é má, então não queremos, pura e simplesmente."

Como o acordo é uma coisa péssima, basta pegar-lhe na palavra e continuar a assinar a petição. Não queremos, pura e simplesmente.

Vasco Graça Moura | Escritor | in Diário de Notícias | 01/10/2008


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A Petição Contra o Acordo Ortográfico continua aberta e disponível para assinatura.

Assine-a em www.ipetitions.com/petition/manifestolinguaportuguesa.
Enquanto há Língua, há esperança.

5 comentários:

Nuno Ferreira disse...

«(...) António Emiliano apresentou provas documentais (manual de estilo da Wikipedia e lista dos Locale ID and Language Groups da Microsoft) (...)»

Fiquei satisfeito por saber que o meu trabalho não foi em vão:

http://fs1.nuno.net/DiscordiaOrtografica.pdf

«(...) Por outro, não pode ainda considerar-se esgotado o conjunto de possibilidades de ataque ao Acordo Ortográfico, nem no plano analítico e argumentativo, nem no plano das acções a empreender. (...)»

Também aqui já desenvolvi algum trabalho. O plano de acção está delineado. Aguarda apenas a altura mais oportuna para ser colocado em marcha.

Tanto esforço apenas para ser língua oficial da ONU? Imaginemos que até conseguimos que seja língua oficial da ONU... Quais as vantagens garantidas / provadas? E qual a relação entre o custo e o benefício? É positivo? Para quem? Para o Brasil?

A vantagem é toda do Brasil.

Conseguirá penetrar muito mais facilmente nos mercados que adoptarem este acordo. As editoras, tradutores, etc. desses mercados terão cada vez mais dificuldades em se afirmarem. Mesmo os países que não aderirem ao acordo terão a vida mais dificultada. Até Angola será invadida pelas empresas brasileiras. Nem consigo imaginar o que será na Guiné, Cabo Verde, Moçambique...

Este acordo (qualquer acordo) é mau para Portugal.

Voltando à ONU.

Há garantias de ter o Português como língua oficial? E sem acordo, não há?

Relembro que são 6 as línguas oficiais da ONU. 5 existem desde a fundação. O Árabe foi adicionado em 1973.

PASME-SE:

TODAS AS 6 LÍNGUAS TÊM INÚMERAS VARIANTES!!!

Tanto assim é que a versão do Inglês utilizada na ONU é a BRITÂNICA!

Somos mesmo pequeninos... principalmente de mentalidade política. Mais do que de território.

Volta, D. Sebastião, ainda estamos à tua espera.

António Emiliano disse...

Caro Nuno Ferreira,
Agradecemos (a Nação e a Língua agradecem) todas as colaborações sérias de opositores ao monstruoso AO. Agora, tenhamos a noção de que este espaço de comentário não serve para auto-promoção ou auto-engrandecimento. Não tive qualquer contacto consigo, não conhecia previamente o documento online que refere (muitíssimo interessante -- a gerência deste blog bem faria em apontar um link para o seu texto). Os dados que apresentei estão disponíveis na net e a sua apresentação na Ass.ª da República não resulta de nenhum contacto consigo ou com o “seu trabalho”. Que isto fique claro.

Se tem um “plano de acção delineado” fará bem em articular-se com outros antiacordistas. Todos não somos de mais para combater esta coisa. E se já “desenvolveu trabalho” porque não divulgá-lo e partilhá-lo?

Última nota: insistir no Brasil, ou melhor, cascar constantemente no Brasil, como forma de combater o AO é profundamente ineficaz. O Brasil é supostamente uma potência emergente em que apenas 20% a 25% da população é plenamente alfabetizada (segundo as estimativas mais optimistas, que me parecem inflacionadas). É um país com problemas sociais, económicos e educativos terríveis. Não é, certamente, sabemo-lo bem, o melhor dos exemplos para “motor da Lusofonia”, expressão cabotina usada por algumas luminárias locais. Mas não é com retórica anti-brasileira que vamos lá. Este acordo é mau para Portugal: esta é a premissa que conta, é nisto que se deve insistir. Já basta o servilismo e submissão dos autores do AO e dos actuais governantes aos interesses do Brasil (que toda a gente conhece), já basta as referências permanentes ao Brasil a propósito desta questão. Basta! Ignore-se o Brasil, reduza-se à sua condição de país estrangeiro unus inter pares no concerto da CPLP (que serve para pouco) e pense-se em no Nosso País e nas gerações de Portugueses que serão afectadas pelo estapafúrdio AO. Combata-se o AO de maneira inteligente, séria, elevada e pedagógica.
Correcção: não somos pequeninos, meu amigo, mas somos governados, geridos e educados por anões. Não somos pequeninos. Faça-me o favor de me não incluir sem mais, a mim, aos meus e a muitos outros que se esforçaram e esforçam, mal ou bem, para que Portugal se não desvaneça por completo na apagada e vil tristeza que é a república portuguesa, nessa pequenez colectiva. Não me revejo nela, passo a imodéstia. Pelo menos por enquanto.
- A.
PS. O Senhor Rei Dom Sebastião tombou fez este ano 430 anos, Deus o tenha e guarde em Sua glória. Respeito pelos Maiores da Pátria. Não se invoque o seu nome e a sua memória trivialmente ou em vão.

Nuno Ferreira disse...

O documento foi elaborado na noite de 14 para 15 de Maio de 2008, para ser enviado nessa mesma madrugada à A.R., e foi enviado como anexo para o endereço de e-mail deste BLOG no dia 18/6/2008 às 12:43. No texto do e-mail, entre outras coisas, poderia ler-se:
«Parabéns pelo BLOG. E também por toda a iniciativa. Tenho ajudado na divulgação desta iniciativa(...) Também elaborei um pequeno documento que enviei para o Presidente da AR, para os partidos com assento parlamentar e para o Presidente da República (...)»
Lamento ter assumido que o meu e-mail tivesse sido lido, e que o meu esforço teria sido útil.

Quanto ao resto... há muito que aprendi a falar apenas para quem está disposto a ouvir.

Tschüss.

António Emiliano disse...

Sr. Nuno Ferreira: i) não sou autor deste blog; vi o seu (primeiro) comentário, que tem dados muito interessantes, por acaso ao fazer uma busca na net de artigos do VGM; ii) não conhecia o seu documento nem as suas diligências junto da AR; iii) acho o seu documento muito interessante, relevante e merecedor da maior divulgação, devendo ser incluído no documentário deste blog (cabe à gerência fazê-lo, bem entendido); iv) lido ou não pelos autores deste blog, o documento é utilíssimo, pelo que não há razão para lamentação. Mas ‘Tschüs’ (ou ‘Tschüss’, com vogal breve) é alemão, e como aqui se fala português de Portugal, e sem acrimónia, mando-lhe um vigoroso “Saúde!”, e dois velhos provérbios, que vêm bem a propósito do comentário que teve a bondade de me dirigir: “Smjert do nepratelsku jednotku!” (esclavónico) e “Gjarpëri ecën dhe fshin gjurmët me bisht.” (albanês). - A.
PS. Sabe que há quem continue a escrever “Tschüß“ com Eszet como forma de militância contra o Acordo Ortográfico Alemão que alguns pequenos grandes países como o Luxemburgo e o Liechtenstein rejeitaram bem como a generalidade da população e da imprensa alemã e austríaca.

Nuno Ferreira disse...

Depende de quem é o inimigo, e de quem é a serpente. Porque...

«Kush di me lavdue, din edhe me cpifë»

O trema, graças aos nossos amigos brasileiros, ainda consigo obter neste teclado. Já para obter o ß tenho de recorrer ao CHARMAP. Só por isso não o usei. Porque também eu prefiro o ß ao duplo S.

E é este o caminho a seguir também em Portugal. A língua de um povo não se define por decreto.

جانبي