segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Brasil: Nova regra de ortografia confunde até dicionários

Notícia Folha Online | 27 de Outubro de 2008 - 09:18
Nova regra de ortografia confunde até dicionários

por RICARDO WESTIN
da Folha de S.Paulo

Faltando apenas dois meses para que as novas regras ortográficas entrem em vigor no Brasil, nem mesmo os especialistas em língua portuguesa conseguem chegar a um consenso sobre como determinadas palavras serão escritas a partir de 1º de janeiro de 2009.

As divergências aparecem nos dicionários "Houaiss" (ed. Objetiva) e "Aurélio" (ed. Positivo), nas recém-lançadas versões de bolso, que já contemplam as mudanças ortográficas. O "pára-raios" de hoje, por exemplo, virou "para-raios" no primeiro e "pararraios" no segundo.

A lista de diferenças continua. A versão mini do "Houaiss" grafa "sub-reptício" e "para-lama". Em outra direção, o novo "Aurélio" traz "subreptício" e "paralama".

Prevendo o impasse, antes mesmo do lançamento dos dicionários, a ABL (Academia Brasileira de Letras) tomou para si a difícil missão de dirimir essas e outras dúvidas. A palavra final da entidade deverá sair apenas em fevereiro, quando as novas regras ortográficas já estiverem valendo.

Confusões

O acordo internacional, assinado em 1990, foi concebido para unificar e simplificar a grafia da língua portuguesa. Certos acentos serão derrubados ("enjoo" e "epopeia"), e o trema será praticamente extinto -só permanecerá em palavras estrangeiras (como "Müller" e "mülleriano").

O que tem sido motivo de apreensão é o hífen.

O acordo está cheio de regras novas --certas palavras perderão o hífen (como "antissocial" e "contrarregra") e outras ganharão ("micro-ondas" e "anti-inflamatório")--, mas deixa buracos.

O texto diz que devem ser aglutinadas, sem hífen, as palavras compostas quando "se perdeu, em certa medida, a noção de composição". E lista meia dúzia de exemplos: "girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista, etc.".

"O problema está justamente no "etc.". Como sabemos que as pessoas perderam a noção de composição de uma palavra? É algo subjetivo", afirma o professor e autor de gramática Francisco Marto de Moura.
Na dúvida, os elaboradores dos dois dicionários consultaram especialistas e chegaram às suas próprias conclusões.

O "Houaiss", por exemplo, achou mais seguro ignorar o "etc." e decidiu que só seriam aglutinadas as seis palavras da lista de exemplos.

"Com essas mudanças, os dicionários precisam sair na frente, já que são as obras às quais todos vão recorrer. Precisam dar soluções. Diante das lacunas, tivemos de inferir", afirma Mauro Villar, co-autor do "Houaiss".

O acordo diz que perdem o acento os ditongos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como "idéia" e "jibóia". No entanto, existe hoje uma regra que determina que paroxítonas terminadas com "r" tenham acento. O que fazer com "destróier", que se encaixa nas duas regras?

O texto tampouco faz referência ao uso ou à ausência do hífen em formações como "zunzunzum", "zás-trás" e "blablablá".

Pontos obscuros

No início do ano, quando aumentaram os rumores de que as mudanças ortográficas acordadas em 1990 finalmente seriam tiradas da gaveta, a Academia Brasileira de Letras começou a se debruçar sobre os pontos obscuros. Seis lexicógrafos e três acadêmicos têm essa missão.

"Estamos tentando resolver os problemas de esquecimento e esclarecer os pontos obscuros. As interpretações serão feitas com o objetivo de facilitar a vida do homem comum", diz Evanildo Bechara, gramático e ocupante da cadeira 33 da ABL.

As decisões da comissão da ABL estarão no "Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa", a lista oficial da correta grafia das palavras.

O término da obra estava previsto para novembro. Por causa do excesso de dúvidas, o lançamento acabou sendo adiado para fevereiro.

Uma vez pronto o "Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa", os dicionários de bolso que já incorporaram o acordo ortográfico internacional precisarão ser mais uma vez reeditados, dessa vez com as mudanças definitivas. É por isso que as versões completas do "Houaiss" e do "Aurélio" ainda não foram lançadas.

As novas regras ortográficas começam a ser aplicadas em janeiro de 2009, mas as atuais continuarão sendo aceitas até dezembro de 2012.

A partir de janeiro de 2013, serão corretas apenas as novas grafias.

[Ligação para artigo original ]

7 comentários:

cadeorevisor disse...

Um acordo que começou errado e continuou todo errado só poderia terminar assim. E ele ainda vai causar muito transtorno.

Abraço,

Pablo
http://cadeorevisor.wordpress.com

felpo disse...

A palavra "Acordo", pressupõe que haja entendimento. Isto desde o início foi a imposição, à maneira colonial, de um modelo incoerente. Neste caso as vítimas serão todos os falantes que se sentem afectados, quer sejam de Angola, Brasil, Cabinda, Cabo Verde, Guiné, Índia, Moçambique, Portugal, São Tomé, Timor ou outros espalhados pelos quatro cantos do Mundo.

Anónimo disse...

Por favor como Brasileiro. Eu imploro faça com que seus governantes votem uma lei proibindo o Brasil de chamar o português de sua língua oficial. Para que nós brasileiros façamos uma língua só nossa sem as regras inventadas apenas para atrapalhar nossas vidas.

Anónimo disse...

Eu gostaria que os senhores comentassem o seguinte artigo: http://diario.iol.pt/esta-e-boca/brasil-acordo-ortografico-lingua-linguista-dicionario-portugal/1029404-4087.html

Vejam só a estupidez destas pessoas.

Contagem regressiva para Portugal... disse...

"Cabo Verde adopta Acordo Ortográfico a partir do Verão"

http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Interior.aspx?content_id=1075797

Djegovsky disse...

O VOLP não fará sentido se for feito apenas pela ABL. De que adianta a nossa academia decidir uma coisa se a de Portugla definir outras? Se é para ter unificação, ambas devem trabalhar em conjunto.

Matheus Benassuly disse...

Acabo de escrever um artigo de apoio ao movimento em defesa da Língua Portuguesa no meu blog. Se puderem, digam o que acham, e se existe alguma imprecisão nele.

P.S.: Sou um brasileiro que apoia essa causa.

www.contraotempo.blogspot.com